As cortinas se abrem. Um sujeito aparece vestido de mágico. Começa a tirar a roupa como se não houvesse uma plateia à frente. E não há. Sua expressão é a mesma desde que pisou no palco, algo com um quê de distraído. Estende as mãos com as palmas para cima, em frente ao peito, uma encostando-se na outra, observa-as e as palavras vão saindo:
Eu sou tudo que não consegui ser.
Parece-me que agora é uma iminente sala de espera
Para a desistência.
Eu sou tudo que não consegui sentir
Os dias são idênticos
Nem rápido, nem devagar.
Eu sou tudo que não consegui pensar.
O medo de uma ideia antiga retornar
E desconstruir-se.
A lágrima sem motivos é apenas mais água
Inundando um seco vazio.
O que escrevo é um meio termo da dor e nulidade
Um pouco de saudade
Da infância.
Vou reciclando a lembrança de uma sensação boa
Polindo sucata em ecos cada vez mais fracos
De mim mesmo.
De mim mesmo.
Resta-me por fim uma garganta fechando
O que escrevo me parece uma piada de mau gosto
Recomeço a terminar-me por intermédios
Onde é que foi parar meu sentido?
Minha vida tem sido uma grande negação
De mim mesmo.
16/01/2012
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