16/01/2012

As cortinas se abrem. Um sujeito aparece vestido de mágico. Começa a tirar a roupa como se não houvesse uma plateia à frente. E não há. Sua expressão é a mesma desde que pisou no palco, algo com um quê de distraído. Estende as mãos com as palmas para cima, em frente ao peito, uma encostando-se na outra, observa-as e as palavras vão saindo:

Eu sou tudo que não consegui ser.
Parece-me que agora é uma iminente sala de espera
Para a desistência.

Eu sou tudo que não consegui sentir
Os dias são idênticos
Nem rápido, nem devagar.

Eu sou tudo que não consegui pensar.
O medo de uma ideia antiga retornar
E desconstruir-se.

A lágrima sem motivos é apenas mais água
Inundando um seco vazio.

O que escrevo é um meio termo da dor e nulidade
Um pouco de saudade
Da infância.

Vou reciclando a lembrança de uma sensação boa
Polindo sucata em ecos cada vez mais fracos
De mim mesmo.

De mim mesmo.

Resta-me por fim uma garganta fechando
O que escrevo me parece uma piada de mau gosto
Recomeço a terminar-me por intermédios
Onde é que foi parar meu sentido?

Minha vida tem sido uma grande negação
De mim mesmo.