Sou uma folha em branco
Rabiscos, palavras, versos, desenhos
Estão fora disso...
A folha deixará de existir
Mas não o branco
Retornarás do que veio
Do que veio retornarás
Pouco importa quem sou.
E apesar do que sinto me importar
É apenas uma folha amassada...
Do falso sorriso de Sísifo
Em seus círculos cada vez mais perfeitos
Precisamente imperfeito
Perfeitamente impreciso.
Beijo-te em sonho e então pergunto "Qual o sentido da vida?", não parece te importar, nem a mim, mas encaixou como a última peça que faltava. Não me importa não te importar, estarei esperando, por perto, em algum lugar. Ao passo de que até em sonhos minha prudência, por homeopatia, tenta me dragar à realidade, eis que acordo. Desajustado na cama, o lençol amassado ao chão, o que se passa por real me faz querer voltar, mas não consigo... É uma jornada acordar e conectar todos os pontos das coisas que você não pode fazer por mais que queira aos seus hábitos diários. Aos poucos, o que sonhei se passa em pequenos flashes, vagas lembranças. Será que ainda tenho alguns minutos pra continuar deitado? Uns dez minutos e vou escovar os dentes. Afinal, qual o sentido da vida? E o que é que vou comer agora?
O ponto de ônibus é o porto de meus dias. Minhas melhores reflexões, depois das que tenho após tomar um pé na bunda ou encontrar uma pessoa que tem linhas de sentimentos ou ideias que se cruzam sem dar nó às minhas, são feitas esperando a frota cotidiana se arrebatar na minha falta de crença da rotina. Grandes janelas, velocidade e movimento, mas completa falta de ação. Rostos que talvez eu veja todos os dias ou que vi uma vez apenas, que me importa? São rostos com a mesma expressão. É banal ao ponto de que transpassa ao relato, melhor mudar de assunto.
Não consigo mudar de assunto, eu nunca mudei de assunto em toda minha vida. Às vezes acabo pulando corda com a linha de minha vida até então. Também tenho a impressão de que tenho feito isso desde sempre. E é mais ou menos aqui que eu perco o foco narrativo e tudo volta a ser a impessoalidade que insisto. Tem uma ou outra coisa suspensa na distância das estrelas que me evocam isso ou aquilo, que eu supostamente deveria deixar perto de mim e sentir com elas. Mas pareço-me muito com um oceano, muito do mesmo. A palavra mesmice chega a irritar. São 40 minutos de viajem, é muita coisa, essa merda de vida tem que ter um sentido.
Tenho essa coisa meio zen meio espadachim, meio mago meio Chico Chavier de achar que a mente é uma coisa muito forte, tipo um megazord. Tenho essa coisa de tentar ser engraçadinho também, mas nem sempre. É que de vez em vez você pega uma coisa na primeira olhada. Aí passa na cabeça que nem filme. Você sabe até como vai acabar. E não adianta fazer cena adicional que sabe também que não vai adiantar. Você deixa de ser você e pretende ser outra pessoa, como nos filmes. É uma possibilidade de alternar a realidade, como nos filmes. Pra um mundo onde você acredita que toda essa baboseira megazord vai realmente te levar pra algum lugar, como se a vida tivesse um sentido, como nos filmes.
Como isso daqui não é livro da Clarice, tá na hora deitar-me e sonhar que te beijei e depois perguntei "Qual o sentido da vida?". Sei que não cola muito, mas em sonho qualquer coisa cola. Eu já sonhei de tinha uma mão mutante na cintura e outra que saía da minha barriga. Isso é porque a censura é 12 anos. Do resto de meu dia, nem vale relatar, só penso no que não deveria pensar. Penso que não deveria pensar também. Costumo a pensar que sou mau por isso, até porque não deveria pensar nisso. Passa na cabeça que nem filme. Mas nada disso vai dar sentido em perguntar "Qual o sentido da vida?", só se eu imaginar isso em sonho, como num filme, a te beijar.