01/05/2010
sublimando
Olhando do alto, bambeio-me à queda; pelo bom, enfureço-me pelo egoísmo apático de me conter com o que desejo em ciclos fechados de ambições. Tudo ao meu redor de nada tem de inexpressivo, pois quem é sou eu, e se sou, expressaria se não fosse, eu, tão inexpressivo. Criei barreiras intransponíveis do meu mundo para o mundo real. Não pertenço ao tempo, não pertenço às lembranças, não se trata sequer de pertencer. Os vales neblinados e misteriosos que imagino enquanto estou a pairar no pináculo do devaneio, eles representam o futuro. Na mais suave nuance que por detalhe mínimo consigo perceber na música, faço meu dia. Uma câmera analisando tudo em círculos, círculos cada vez mais perfeitos, em câmera lenta, de trás para frente, distante, como que distraída, como que espontânea. Como que em trocas de olhares que nunca são levadas adiante, como em um truque de mágica que se prefere não entender o mecanismo da enganação; sim, a mágica da vida, onde eu prefiro não entender a irascibilidade dos fatos, o padrão inerte e invisível em tudo que se sucede. Abrangido o tempo em minha consciência, espalho-o, espallho-me em dores na garganta. O coração quer explodir, quer sair de meu corpo que insiste em não aceitar que a vida é bela demais para se lamentar, bela demais até para se lembrar.
26/04/2010
podia que não podia acabar
Aquela faísca que um dia foi um clarão, aquele orgulho que um dia foi íntegro, não existem mais. No mais, não mudo. Por muito pensei em ser mudo, pra ver se mudaria alguma coisa. Mas apenas dificultaria. Se bem que não possuo mais motivos pra falar. Talvez se eu abandonasse o ato de escrever tudo que venho a pensar. São desimportantes, são supérfluos, desnecessários, pensamentos precários; projeto sem base de anseio irreal, completa negação da ausência me dando como presença, única presença, mas que, porém, incomoda. A recíproca um dia foi verdadeira e nada pode ser pior que isso, até mesmo que se nunca tivesse sido. Pois é quando se tem e perde, pois é quando se noticia tardiamente o que se queria em um almejo contínuo e silencioso- aquele preso na garganta- que tudo desmorona. Só me restou o lamento que tanto desprezo. Mas não tenho piedade, mesmo sendo lamentável. Fiz por merecer, merecemos o que cultivamos, sempre dizem. Pois silenciei tudo que se sente para nunca então ser sentido. E agora nada faz sentido. Preciso do nada mesmo sabendo que nada pode me deter. Preciso do nada mesmo sabendo que tenho sentido, sentido muito. Os fatos não me importam mais, mas não há dia que eu não me reclame o direito de saber se existe, ainda, em vida. Eu queria não querer. Sou a causa da minha própria dor, do meu próprio desinteresse. Sei muito bem qual a minha doença. Podem inventar, podem me mostrar com números e raio x, mas nunca entenderão, pois, que os tempos são outros e que eu não pertenço a este.
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