28/12/2010
Por muito acredito que sinto pena de mim, que mereço algo de especial, mesmo que seja me tornar algo especial; também me considero a merda ambulante do mundo, um zero a ser somado à esquerda de outro, e que se é que sou alguma coisa, mereço sofrer até não mais querer ser. É preciso imaginar Sísifo feliz mesmo sem ter esperanças. O mistério me mantém vivo e me mata aos poucos. Se tenho motivo de vida, é saber que posso me matar a qualquer momento. Talvez é a minha maior motivação. Dos meus princípios, a incerteza. Vivo me repetindo, é mais ou menos assim. Não gosto do que escrevo, mas continuo. Continuo não gostando, mesmo assim. Contínuo. Alguém me ouve? Ou será que eu não ouço ninguém? Respiro fundo pra entrar mais ar porque quero acabar com isso de vez. Mas às vezes gosto de ficar guardando ar, nunca se sabe quando vai faltar. Minha razão é um grande não. Dos meus sentimentos, uma aceitação. Aceita logo mano, para de se regrar. Eu não. É mais ou menos assim. Tenho me boicotado a vida toda pra descobrir que se eu não o tivesse feito tudo teria acontecido mais rápido e eu teria descoberto que já estava fudido há muito tempo. Fiz só atrasar porque não gosto de dor. Essa dor sem nome, que não sai sangue mas é bem vermelha. Mas acho que entendi. A pedra é a dor. Devo me imaginar feliz toda vez que me encontrar com ela. E não adianta eu fugir de meu destino, que será sempre círculos cada vez mais perfeitos.
18/12/2010
Das minhas declarações de amor
Um silêncio como resposta
Pra quem sempre quis chamar atenção
Uma tentativa de invisibilidade.
Se realmente o sou
Não posso reclamar
Que até na noite existe clarão
De luar ou pequena verdade.
E no fundo é o que prefiro:
O nada ao não
O mistério à decisão.
Eterna imobilidade
Do que ainda podia me restar
Minha vida tem sido uma grande negação.
Um silêncio como resposta
Pra quem sempre quis chamar atenção
Uma tentativa de invisibilidade.
Se realmente o sou
Não posso reclamar
Que até na noite existe clarão
De luar ou pequena verdade.
E no fundo é o que prefiro:
O nada ao não
O mistério à decisão.
Eterna imobilidade
Do que ainda podia me restar
Minha vida tem sido uma grande negação.
05/12/2010
Finjo o oposto do considerado
Fraquezas
Agonizo e regozijo apenas por
Incertezas.
E que por sentir muito, me obrigo a impor
Friezas
Que por minha inércia o tempo ainda a urgir cria
Fortalezas.
Me negar ao ponto do contrário
Como se possível isentar-me de mim
É a dúvida que consome.
À intransponibilidade do tempo
Mesmo com toda sua relatividade
Sou por temor obrigado a me curvar.
Fraquezas
Agonizo e regozijo apenas por
Incertezas.
E que por sentir muito, me obrigo a impor
Friezas
Que por minha inércia o tempo ainda a urgir cria
Fortalezas.
Me negar ao ponto do contrário
Como se possível isentar-me de mim
É a dúvida que consome.
À intransponibilidade do tempo
Mesmo com toda sua relatividade
Sou por temor obrigado a me curvar.
29/11/2010
28/11/2010
Vazio infinito
Cada palavra que li em vida é uma metáfora perfeita do infinito. Cada noite que passei sozinho é uma estrela em que sua distância de mim é a mesma entre o que sinto e o que revelo para o mundo. As vezes em que engoli seco no escuro não foram porque me senti sozinho, por estar sempre sozinho não me permitia parar de pensar em alguém. Sempre na linha da fronteira entre desejar e o irreparável, recebo a fantasia que me apatiza da realidade e cerco cada vez mais o possível com o desperdício. Mas não opto, deixo o futuro como um intransponível ponto de interrogação. Há o que me lembro desde o primeiro dia e há certas coisas que passam por minha cabeça, separadas do agora por apenas alguns minutos, que prefiro não me lembrar. Não me lembro de como acabei me tornando o ser que não se lembra de como acabou sendo. Por isso continuo sendo algo que só dá pra entender se for em terceira pessoa. Pode até ser, mas não sou eu. É mais ou menos assim: eu não sei quem sou, só sei o que quero. Feito bobo, me pego perguntando qual o sentido da vida. Coisas que não parecem terem sido terminadas se parecem com um trauma, exige medidas de desespero para aliviar o que foi deixado em aberto. Mas nem desespero, nem ansiedade, nem saudade aliviam o que quer que seja. A cicatriz fica. E qualquer que tente iluminar o que esteve por muito no escuro, cega. Como alguém que matou sua esperança na desilusão e o único motivo do coração pulsar é pela sobrevivência. Expurgo isso como se acreditasse que eu sou alguém melhor, ou que poderia ser melhor, requer todo meu ser e nada sobra. Na verdade fica em débito. Como retribuir por algo que nunca me aconteceu?
21/10/2010
Um jeito pela empatia, só o que eu queria. Começo mal, é sempre assim, são círculos... Uma pirâmide que cresce, milênios compactados em um processo mnemônico. Lembro da floresta escura, tudo em primeira pessoa, sim. Minha vida não faz muito sentido se eu não imaginá-la com uma trilha sonora sensível, sem vocais líricos. Não há muito a dizer, o mais importante já foi falado, escrito, cravado em pedra. Os primeiros raios de luz que me alcançam no nascer do dia, o que eles significam? Não quero me levantar e pensar nessas coisas, mas há ainda muito a se pensar. Mas o tema não muda, vida e o que a circunda. Tomo nota em algum lugar, leio alguma coisa de alguém que é ou foi mais importante que eu; um amigo não mais presente, suicidou-se por um mal hereditário. É difícil manter a fé, mesmo com tantos motivos pra ter, há também para não se ter. Tenho mesmo que escolher um partido? Escassez e ignorância são o amálgama de minha tristeza, galvanizam meu dia cinza e sem expectativa como que um aviso de que eu deveria recorrer, sabe como é, tomar partido... Quando foi que a vida se tornou algo tão sombrio para mim?
02/05/2010
Pés na areia, luzes flácidas, como que fumaça, se movem. Uma silhueta de uma pessoa de costas, não se pode distinguir cor, idade, só sei que está a observar o sol se por, de frente para o mar, na específica hora em que o astro se une às águas e que depois é engolido por elas. Nesse instante é como se a água gesticulasse, com seus ruídos, um tipo de despedida. Mãos na cabeça, deitado na areia, as estrelas começam o cortejo. É como se tudo fosse preparado, tudo calculado.
Something that only I can see, something between obvious and known, something deeply inside everybody's mind but only triggerable in mine. Things we all say, things we think only we know, things we wonder if they are understandable. Seems distant but somewhere between time and space, between wonder and reality, it passes through, easily and naturally. Does it exists or do I have to make it real?
01/05/2010
sublimando
Olhando do alto, bambeio-me à queda; pelo bom, enfureço-me pelo egoísmo apático de me conter com o que desejo em ciclos fechados de ambições. Tudo ao meu redor de nada tem de inexpressivo, pois quem é sou eu, e se sou, expressaria se não fosse, eu, tão inexpressivo. Criei barreiras intransponíveis do meu mundo para o mundo real. Não pertenço ao tempo, não pertenço às lembranças, não se trata sequer de pertencer. Os vales neblinados e misteriosos que imagino enquanto estou a pairar no pináculo do devaneio, eles representam o futuro. Na mais suave nuance que por detalhe mínimo consigo perceber na música, faço meu dia. Uma câmera analisando tudo em círculos, círculos cada vez mais perfeitos, em câmera lenta, de trás para frente, distante, como que distraída, como que espontânea. Como que em trocas de olhares que nunca são levadas adiante, como em um truque de mágica que se prefere não entender o mecanismo da enganação; sim, a mágica da vida, onde eu prefiro não entender a irascibilidade dos fatos, o padrão inerte e invisível em tudo que se sucede. Abrangido o tempo em minha consciência, espalho-o, espallho-me em dores na garganta. O coração quer explodir, quer sair de meu corpo que insiste em não aceitar que a vida é bela demais para se lamentar, bela demais até para se lembrar.
26/04/2010
podia que não podia acabar
Aquela faísca que um dia foi um clarão, aquele orgulho que um dia foi íntegro, não existem mais. No mais, não mudo. Por muito pensei em ser mudo, pra ver se mudaria alguma coisa. Mas apenas dificultaria. Se bem que não possuo mais motivos pra falar. Talvez se eu abandonasse o ato de escrever tudo que venho a pensar. São desimportantes, são supérfluos, desnecessários, pensamentos precários; projeto sem base de anseio irreal, completa negação da ausência me dando como presença, única presença, mas que, porém, incomoda. A recíproca um dia foi verdadeira e nada pode ser pior que isso, até mesmo que se nunca tivesse sido. Pois é quando se tem e perde, pois é quando se noticia tardiamente o que se queria em um almejo contínuo e silencioso- aquele preso na garganta- que tudo desmorona. Só me restou o lamento que tanto desprezo. Mas não tenho piedade, mesmo sendo lamentável. Fiz por merecer, merecemos o que cultivamos, sempre dizem. Pois silenciei tudo que se sente para nunca então ser sentido. E agora nada faz sentido. Preciso do nada mesmo sabendo que nada pode me deter. Preciso do nada mesmo sabendo que tenho sentido, sentido muito. Os fatos não me importam mais, mas não há dia que eu não me reclame o direito de saber se existe, ainda, em vida. Eu queria não querer. Sou a causa da minha própria dor, do meu próprio desinteresse. Sei muito bem qual a minha doença. Podem inventar, podem me mostrar com números e raio x, mas nunca entenderão, pois, que os tempos são outros e que eu não pertenço a este.
24/04/2010
devaneio/escrita fluída
de hoje em dia de amanhã em diante de falante a galante, de ateu por quem deu. Me fiz ontem do hoje e do hoje faço amanhã. Do dia, a luz; da noite, o silêncio. Da solidão, a escuridão; das companhias, falácia. Me fiz, me faço, me farei. Muito sou em pouco ser, muito quero em pouco poder. Haverá dia da angústia que o coração saltará da boca e me dará um tapa na cara dizendo que eu não o mereço. Me atenho, paro para pensar, sobre o que, agora, haveria eu de devanear? Orgulho, veio à cabeça mas não sei por qual motivo. Motivos são vagos e minha mente é vaga. Pra ser sincero, falta. Queria saber o segredo do gênio, o segredo daquele que ascende. Ânsia pelo ulterior, pelo que vem acima, de cima. Seria a necessidade de deus, ou o simples reflexo de um melhor ser para eu poder me ater?
Escrever...
É uma opção e, pra ser bem honesto, eu diria, errada. Imagens fazem de melhor maneira. Números nem se fala. Sons, acredito que também são mais perceptíveis que a noção de uma palavra. Palavra é algo que soa sempre vago, por isso o homem nunca a cumprirá. Ao ato da escrita, principalmente, levando em conta que tudo em minha vida tenho a impressão de ter errado na escolha, é justo quando transponho de maneira legível e confusa em forma de relato, que encontro-me de cara com o paroxismo da incerteza. Quando estou decepcionado por pensar assim, sei que fiz a escolha errada, seja por ter chegado a esse ponto ou por ter me deixado levar a ele. Engraçado como lateja em meu cérebro a palavra "dor", mas serei honesto, não a sinto. É uma melancolia lenta sem auto piedade, é saber que posso estar errado e mesmo assim não mover um músculo. Acomodo-me e isso me causa mais acomodação. É um ciclo vicioso, círculos cada vez mais perfeitos. Sei que estou perdendo meu tempo escrevendo, sei que deveria estar fazendo algo melhor do que relatar minhas incertezas e minha acomodação, sei que não impressionarei uma pessoa sequer repetindo o que eu sei ou o que deixo de saber. Honestamente, escrevo para mim. Articulo melhor meu pensamento quando o vejo fluído em um texto. Analizo a mim mesmo, vejo que estou preso há muito. Eu sinto liberdade, mas ela é pequena, sem asas e só aparece quando convém. Escrever não adiantará, parar também não. Mas trata-se de uma perseverança nula. Não é que ligo para os meus interesses, só não consigo parar de pensar neles. Há uma diferença, eu acredito. Não me importa o fim ou a causa, apenas importa que importa. Mas não deveria me importar, deveria me exportar. Mas se o faço, de que importa a vida?
20/04/2010
Night but day...
A música tem o seu sentido que, eu não diria insólito, pois, muitos devem usá-la com o mesmo propósito meu. Eu não preciso de alguém. Eu não preciso de quem preciso. Estou livre, seja livre apenas pelo tempo de duração daquela sensação que só aquela música conseguiria produzir, que só aquele soluço agudo no silêncio da incerteza de que se deve ser certo, certo de algo, conseguiria exprimir. De algo, pois, me fiz então. E agora? Arranje um emprego. E agora? Eu não sei, se case. São ciclos, são círculos, são todos cada vez mais perfeitos. Todos quem, todos quais, todos a quem digo que são, mas, se são, não saberia dizer. Não me importo, mas importar-me devia. Parcial do início ao fim, recorrer ao que foi recorrido, me usar do que já foi usado. Não é um crime, nem é errado. Tudo foi falado. Meu contexto é outro, a minha história é nova. Se é- se sou-, saberia, se não, não. Nego, menos de mim, mais de ninguém. Pra todos, se mais, tanto faz, não ligo. Vê? Desculpo-me por não me importar, por não me desculpar. Pois, se me importo, sinto, se sinto, sinto muito. O devaneio me chama, envolve seus fios membranosos azuis céu e turquesa à mão, me chamam para uma fantasia, uma fantasia de um bom alguém, de um lugar incorruptível. De imaginar cenas puras e jamais tocadas pelo dedo humano, de sobrevoar vales neblinados com o mais profundo mistério. Eu não busco o perfeito, eu não busco o defeito. Busco, apenas, do meu jeito. Machuca pouco, se, olhos não passam pelo que sustento, que por boba crença de criança- daquela que de timidez alcança o limite entre o ignorante e a inocência- imagino das mais belas belas, da redundância do ideal, um tempo mais que perfeito. É um pecado, é uma estigma, criar por palavras toda minha sina, todo meu alento. É dele próprio ,senão, que tiro meu sustento. Os tempos mudaram, a noite é longa, e eu continuo a continuar, continuo sem parar, a não saber se devo ir ou ficar, dormir ou acordar.
15/04/2010
Vento solar.
Sou um convencionalismo social em muitos pontos. Os convencionalismos sociais me impedem de ser quem sou. Como ponto sou, convenciono. Pra tudo há uma resposta, permita-me à pretensão. Minha vida é meu hobbie, me ocupo da desocupação. Na tarde em que se vai à casa, esperando por algo que não se sabe, na sala, com um copo na mão, três metros da televisão, tento entender o que se passa. O sol espiando pela janela, o tempo para. Não me importo, mas importa. Não me analiso, me exporto. O reflexo na televisão criado pelo sol é apenas um reflexo intocável, até as cores mudam. É como se tudo especificamente especificado especificasse para mim uma mensagem ininteligível à consciência mundana. Como em um filme noir, como que inimigo do estado, de olhar amargurado, como que em quem não crê a si, é apenas alguém, não me importa quem. Exportado, expurgado, pungido, não devia crer que se pode crer, pois nem tudo que se pode,pode. Mas mesmo aceitando o nada, creio numa resposta para tudo! Pois existem leis invisíveis aos olhos, regras impenetráveis mediante consciência humana, mero filtro biológico de poucos sentidos. E acredite, até para isso deve haver resposta. Pois a vida existe senão para responder ao que existe.Estímulo. Se existe, há. Se há, procede. Se procede, origina-se. Se origina-se, há causa. Se há causa, é um acontecimento por razão e motivo. O universo expande, assim como o meu. Como que herói, como que passado, acredito, sim, que haverá, além do que sinto, um sentido enunciado. Olho para o copo, raios de luzes entrelaçados; são grandezas concebíveis ao meu estado, que, não por acaso, sou inimigo. Sem ele, então- entenderia se há ou não-, infinito. Se não houver, tudo será conquistado; se houver, entendido e, finalmente, provável.
10/04/2010
Talvez se eu pudesse acordar. Talvez se eu pudesse mudar. Talvez se fizesse mais sentido tentar. Vendo tudo de fora parece que as coisas fazem mais sentido; vendo de longe, vendo permeado por uma tela, sempre se esbarra, é sempre talvez. Partindo por alguns detalhes que se entende a complexidade de um todo, e aprende-se que não se deve tomar o conteúdo pela forma, mas que a forma não deixa de ter importância. I'm a single player, I'll always be a single player. Não me contento com a visão ou com apenas o conhecimento, não me envergonho em dizer que sou infeliz mesmo possuindo motivos de sobra para o oposto. Mas me envergonho de minhas frivolidades emocionais, me envergonho por me deixar levar por impulsos completamente irracionais. Me envergonho de me aproximar por interesse ou de simplesmente não poder expressá-lo. Me envergonho e admito, sim, que seria muito mais fácil se pudesse eu deixar o coração trancado para sempre. A chave não são as decepções que tive ao passar de minha vida, isso seria olho por olho, mesmo eu não acreditando que pessoas eventualmente se interessam por mim. Eu sinto muito, e por muito sentir prefiro não sentir, para que eu possa ver os feixes entre o emanharado diáfano das folhas, para que a respiração aparente fluída, para que eu não ande mancando. Não sou vítima, mas isso não significa que eu tenha que me culpar.
06/04/2010
O personagem perfeito para a história perfeita em um contexto perfeito esperando por momentos perfeitos num dia perfeito com um por do sol perfeito. O perfeito pretexto para que nada possa ser perfeito é quando tudo pode ser, simplesmente, perfeito. Essa é a minha vida. Eu sou perfeito. Sou a pior pessoa do mundo, perfeita! Perfeita, pois, para os dias de hoje. Perfeito para não precisar de nenhum adorno adicional, nenhuma cunha. Perfeitamente impreciso, não preciso de ninguém. Quando escrevo, tudo se perde: trata-se apenas de uma impressão do perfeito, imperfeita.
29/03/2010
Sobre nostalgia.
Pássaros a migrar, mar a ralhar contra o silêncio, crianças sorrindo ao por do sol. Consigo ver o jardim fechado por um portão de grades enferrujadas onde é indistinguível a predicção de que trata-se de manhã ou tarde, onde o tempo cinza é simplesmente perfeito para a ocasião (e não, não se trata de tristeza). Reflexo na água, enterrar um passarinho morto. Conseguir visualizar o que faz parte da sua vida nas nuvens, sentir-se em queda livre. Imaginar o momento em que a menina que amávamos finalmente bate à porta, talvez pedindo desculpas por nunca notar. Não eram nas sutilezas em que residia o vírus da convicção? Não. Ou talvez... Éramos muito novos pra entender essa coisa de mensagem subliminar. Horizonte, lembrar do sonho, vozes e gritos abafados e distantes de brincadeiras de rua, o barulho do motor do carro- especificamente pertencente ao ente amado- aproximando-se, montar um abrigo quando se é pequeno, assustar com filmes não necessariamente de terror. Ter vontade de desenhar, lidar com cães. Distrair-se. Sono em horas inapropriadas, frio matinal, solidão agradável. Fazer as pazes com si, respirar mais fundo quando se tem natureza ao redor. Imaginar um futuro melhor, deificar o passado lembrando-se apenas do que houve de bom, bom de se lembrar. Sorvete, bonecos. Ir para a casa daqueles que possuem sangue de mesma origem à nossa. Dor desnecessária, criada senão pela nossa própria ignorância. Evocar lembranças em câmera lenta em cores turquesa, vermelho vinho, amarelo ipê e azul céu, todos elas contornadas pelo branco quimérico e esfumaçado do etéreo. A pequena caixinha de música com a bailarina que girava, brinquedos de dar corda, casa da avó. Traquinagens de todo o tipo, mostrando que sadismo existia muito antes de Sade. deitar-se na grama à noite para observar as estrelas e, ironicamente, como se não houvesse outro tempo, a não ser esse, para pensar na vida.
Making my own world.
Círculos cada vez mais perfeitos. Sobre tudo ser uma cópia da cópia da cópia da cópia, talvez no fundo seja realmente verdade. Eu não gosto de poemas, porém, música para mim é poesia; me faz imaginar milhões sem que uma única palavra tenha sido dita/cantada, me toca na existência e por alguns segundos não sinto o erro de existir. Uma progressão de sons encadeiam certas reações, certas sensações nostálgicas, simpáticas, evocativas; um mundo que não existe mas que por alguns segundos me senti nele; uma palavra que não foi dita mas que ecoou por entre minhas têmporas e meu pensamento vazio. A nuance perfeita, cores advindas da inocência de propositalmente arranjar notas musicais específicas uma após a outra. É pretensão inocente, pois me agrada o ato de insulflar o mundo próprio para além da consciência neural, mecanizar sonoramente os processos da existência matemática, biológica, imperceptível aos sentidos. Mas por que a música? Eu que não creio em sentimentalismo, imagino cenas dignas do maior senso comum da galáxia só de ouvir algo que inexplicavelmente é de meu agrado. Eu que, como ilha gostaria de me imaginar, crio atóis e arquipélagos em milésimos de segundos, migro com os pássaros para sempre algo próximo do branco e do sensível. Por alguns momentos, me esqueço da dor, me esqueço do compromisso com a vida, me esqueço de tudo que me preocupa; esboço um sorriso só de lembrar, afinal, ninguém é simpatizante da apatia; me esqueço de esquecer que o doce e o suave se juntam, posso sentir o gosto, posso ver as cores de um mundo, um mundo que não existe.
10/03/2010
Hilariedades contemporâneas.
Eu sou um desses casos. No meu orkut, nego minha imagem mas me uso de trabalhos feito por outras pessoas para expressar minha invdividualidade. Não é hilário isso, apresentar uma idiossincrasia por meio de coisas que não vêm ou não são feitas por você? Sim, eu sei que existe toda aquela empatia implícita, que da arte se faz mais pelo que vemos dela pelo que ela é em si, mas é de certa forma um egoísmo que nos é dado. Eu posso interpretar do jeito que eu quiser. O artista passa uma leve impressão apenas, que vai depender muito mais do que eu penso do que a obra propriamente dita. O que eu penso nem faz sentido. Nada faz sentido pra mim. Vejo no máximo regras aproximadas, leis próximas, mas nunca completas. E mesmo nada fazendo sentido, isso me faz sentir muito. Saber que para mim as coisas não fazem sentido, que para mim levantar da cama e encarar a realidade é de um esforço descomunal, isso me desespera muito. A impotência de Kafka, que sinto asco só de ler- porque é como se ele perscrutasse meu âmago, descosturasse minha alma linha por linha, gene por gene-, ela me mostra que não estou sozinho, não sou o único. Mas isso não me satisfaz, continuo inepto, inapto, inerte. A nostalgia é o sentimento de mais força que possuo. O passado pra mim é como o silêncio: valem ouro. Mesmo que no presente tudo se passe por sem sentido, no passado parece simplesmente se encaixar como algo que prezo apenas por lembrar. Como uma música que há muito não ouço, mas que em tempos de merda, era um uníssono de indiferença da minha condição. Eu minto, algumas coisas me fazem sentido, sim. Música é uma delas. São pequenos sentidos, que em meio a um geral de tudo de somas e subtrações, não me satisfazem completamente. É um débito condicional em que me encontro, uma subtração inescapável. O barulho dos ponteiros a se debaterem não me escapa do pensamento. Bomba relógio, não estou aproveitando, não estou milionário, não estou namorando a garota dos meus sonhos, não estou curtindo a vida adoidado, não estou satisfeito, não, não, não, nada, nada, nada; deveria estar mas não estou, deveria estar mas não sou, deveria ser mas não estou, deveria ser mas não sou. Quem é o sujeito imperativo do dever, eu não sei. Mas ele deturpa, filtra, mete não só a colher- como todos os talheres- no meio da minha história. Quem é você? Você é meu modelo de como eu deveria estar a viver? Você é minha insatisfação? Mas eu sequer me sinto insatisfeito, eu me sinto invariável por mais que meus pensamentos mudem, meus atos continuam ininterruptos e homogênios, todos mecânicos, e, apesar disso, não consigo manter hábitos. Até o que me é necessário como comer e dormir, nunca os faço com hábito e singularidade. Creio em muito do que é dito na bíblia mesmo sendo ateu. Não gosto de Clarice Linspector mesmo possuindo momentos de ambivalências semelhantes aos dela. E no meio dessa falta de sentido, a dor. Estranhamente, claro, pois mesmo de que com dor eu estar sentido, nada me faz sentido. São sentidos diferentes... Mesmo não tendo sentido.
08/03/2010
Do meu príncipio, incerteza.
Há a possibilidade de eu estar vivo e morto ao mesmo tempo, que talvez dependa da simples suposição de alguém para tomar um fato como casual; de uma medição. há dias que não me sinto vivo. Por mais que imaginemos inúmeros universos, sempre serão tendências impossíveis de se medir, pois, os meios necessários para a medição também são tendências e nunca um parâmetro completamente confiável; pois, no fundo todos sabemos que há um ponto em que não se consegue explicar, como estar vivo mas não se sentir como tal. Como um sentimento estagnado e constante, que insiste em nos perseguir; como estar sozinho no meio de uma multidão de rostos conhecidos; como acreditar no impossível e querer o que não se pode ter; como jogar fora oportunidades por serem boas demais para ser verdade. Como crer na eternidade, em vida após a morte. Eu, eu estou em quantos universos? Quantos me forem possíveis criar, ante minhas regras? Não. E as partículas interligadas, será que atitudes minhas interagem ou tangenciam atos a milhões de anos luz daqui? Será que existe uma harmonia secreta resultante da interação de uma quantidade astronômica de ondas entrelaçadas, ou será só um caos que quanto mais expansão, mais confusão?
09/02/2010
03/02/2010
A vida é um evento que pode ser expressado numericamente de infinitas maneiras. Mas o infinito pode ser tomado por uma incógnita. A vida pode ser uma incógnita. A existência é um contra tempo, um sinal negativo contra a ordem natural da passagem temporal. A passagem temporal tenderá a inexistir em um buraco negro de campo gravitacional exorbitalmente galáxico. A vida é uma ponte branca. Se há um horizonte limitante chamado sentido, não sinto por tê-lo, mas, se o tenho, sinto. Caminhando, pois, pelo fenômeno da condensação da matéria, da estruturação genética compressora de eventos e informações; processo primitivo reator à desagregação atômica. Por quê? Para existir mais.
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