29/03/2010

Sobre nostalgia.


Pássaros a migrar, mar a ralhar contra o silêncio, crianças sorrindo ao por do sol. Consigo ver o jardim fechado por um portão de grades enferrujadas onde é indistinguível a predicção de que trata-se de manhã ou tarde, onde o tempo cinza é simplesmente perfeito para a ocasião (e não, não se trata de tristeza). Reflexo na água, enterrar um passarinho morto. Conseguir visualizar o que faz parte da sua vida nas nuvens, sentir-se em queda livre. Imaginar o momento em que a menina que amávamos finalmente bate à porta, talvez pedindo desculpas por nunca notar. Não eram nas sutilezas em que residia o vírus da convicção? Não. Ou talvez... Éramos muito novos pra entender essa coisa de mensagem subliminar. Horizonte, lembrar do sonho, vozes e gritos abafados e distantes de brincadeiras de rua, o barulho do motor do carro- especificamente pertencente ao ente amado- aproximando-se, montar um abrigo quando se é pequeno, assustar com filmes não necessariamente de terror. Ter vontade de desenhar, lidar com cães. Distrair-se. Sono em horas inapropriadas, frio matinal, solidão agradável. Fazer as pazes com si, respirar mais fundo quando se tem natureza ao redor. Imaginar um futuro melhor, deificar o passado lembrando-se apenas do que houve de bom, bom de se lembrar. Sorvete, bonecos. Ir para a casa daqueles que possuem sangue de mesma origem à nossa. Dor desnecessária, criada senão pela nossa própria ignorância. Evocar lembranças em câmera lenta em cores turquesa, vermelho vinho, amarelo ipê e azul céu, todos elas contornadas pelo branco quimérico e esfumaçado do etéreo. A pequena caixinha de música com a bailarina que girava, brinquedos de dar corda, casa da avó. Traquinagens de todo o tipo, mostrando que sadismo existia muito antes de Sade. deitar-se na grama à noite para observar as estrelas e, ironicamente, como se não houvesse outro tempo, a não ser esse, para pensar na vida.

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