28/01/2011

Das cidades malditas.

Conurbado, conturbado, contorcionista
Ao mesmo tempo separado por semelhanças
Por mais que se pareçam... Por mais que eu insista,
São pelo detalhe em exceção (a escassez), diferenças...

Vestindo roupas que não me servem, lugares que não me parecem
Sou preciso quanto a isso, imperfeito...
Vou vestindo tudo que não me pertence, nisso, sou perfeito,
Tudo que me for completamente impreciso, me merecem...

Pois sou uma cobaia para testar o ambiente, nada mais...
Carrego por dentro milagres inexplicáveis e genéticos...
O que escrevo são relatórios cíclicos e repetidos...

Sou um pequeno fardo invisível, pequena fagulha de matéria
Condensado da energia, e dela ainda escravo, a luz...
À inexistência mal calculada que faço jus.

26/01/2011

Solidão é alguém sozinho
Me sinto muitos juntos em um ninguém
Desses que se tomam por um só, sinto apenas desdém
E até mesmo como um, comum, serei estranho no ninho.

O tempo é a morte anunciada
Destino bem sei que é só um
Desses tropeços, dessa vida em jejum
E das faltas acabo criando minha enseada.

Esses estrangeiros que pensam ter algo em comum
São na verdade atores de um drama que não passa
Dos bastidores de terrenices tolas, vontades de um

Ser que na verdade, se é, não sabe se vem sendo
E se soubesse, não seria por orgulho
Que se fosse, seria apenas adorno, adendo.

Somos todos atores de uma peça que será vista apenas por nós mesmos. Querer ser além disso, nos tira o direito de atuar nela. Podemos apenas ao que ela pede, e se pedirmos mais, somos outros... Aguenta ser um outro fora de qualquer um?

24/01/2011

Continuação em surdina

Cena de um nascimento...

1


Os olhares desviados, o amor impossível em surdina
Não sei se foram de escolha minha, se me aconteceram sem querer...
Na locadora antiga perto de casa, eu tinha essa sina
De encontrar filmes com cenas perfeitas pro meu envaidecer...

De um mundo secreto longe daqui, um grande jardim
Sonho antigo, ser completo em cores, numa cena...
Somente duas pessoas juntas, unidos por mãos e roupas em marfim
Em um balanço, Uma vida inteira em alguns minutos, te vi pequena

A crescer em meus olhos, por dentro de mim...
Talvez tenha sido egoísmo meu ter escondido tudo
Mas vivia em um mundo perfeito, não precisava nem exisitr.

Entendi a morte, aceito. Desde o começo era ela com seus avisos
De que aquilo não viria, e que o talvez não é um porvir
De um amor ideal incapaz do real que o tem desfeito...

2


Pois como em nascentes, você surge misteriosamente
No horizonte, nas palavras que sou incapaz de dizer,
Que contemplo em meu final de dia, minunciosamente...
Em cada linha de cada tarde, vejo então você nascer

Ao por do sol, no melhor impossível, de lástimas minhas
Vem logo assim, em contraste, pra aliviar essa tristeza...
Que há muito tem sido você, remédio de minhas alcunhas,
Inventadas por quem não acredita (eu), também dessa minha incerteza,

Desse aperto que não consigo explicar, mas sei que é você à porta
Nem avisou que viria, logo assim em correnteza
Desaguando nessa estiagem sem esperanças...

E a banda tocando em frente ao lago espelhado, sonho realizado
De uma cena perfeita, ao por do sol, de um amor ideal e certeiro
Que nasce até em meio a incertezas e desespero...

3

Te amei mil vezes em surdina...
Imaginei-nos em paisagens feitas de luz...
Vi o seu contorno, a silhueta de seu rosto, levemente...
Vi todos os dias em um clarão que me veio à noite...
Se nos amarmos, não haverá final feliz a se contar...
Uma das conclusões mais tristes que me pesam...
A maior reticência que me vagueia...
A esmo nessa imensidão de apertar a garganta...

Te amei mil vezes em surdina...
O passado e o futuro de mãos dadas é meu maior presente...
E por mais que passem, não me faz inveja, sempre mudam...
Mesmo que devagar, ou com muita luta, sempre muda...
Tudo me vem abafado e embaçado como que por excesso...
Dependo dos intervalos em que a falta de claridade e sua abundância me cegam...
De uma coisa que não existe, que não tem cor, nem nome...
Porque toda exceção é uma escassez...

Por isso te amei mil vezes, em surdina.

23/01/2011

Realidade é a teatralidade da verdade

Disfarçando-me com a falsidade
Me aproximo de uma verdade que não seria dita
Se verdadeiro eu também fosse; lugar que necessita
Apenas uma verdade, duas é exagero, alarde.

Me passando por quem não sou
Descubro-me em outros outros
Que se também se tratam por estrangeiros
São mais eu que nunca fui, eu que se acabou.

Máscaras justapostas, formando uma face apenas
De muitas outras que sou e não sou, quis
E não quis, agora são parte do que fiz.

Mesmo que tratado como uma unidade,
Ainda que me sinta incompleto,
O rosto que vejo é a fusão de muitos, incerto.