Cena de um nascimento...
1
Os olhares desviados, o amor impossível em surdina
Não sei se foram de escolha minha, se me aconteceram sem querer...
Na locadora antiga perto de casa, eu tinha essa sina
De encontrar filmes com cenas perfeitas pro meu envaidecer...
De um mundo secreto longe daqui, um grande jardim
Sonho antigo, ser completo em cores, numa cena...
Somente duas pessoas juntas, unidos por mãos e roupas em marfim
Em um balanço, Uma vida inteira em alguns minutos, te vi pequena
A crescer em meus olhos, por dentro de mim...
Talvez tenha sido egoísmo meu ter escondido tudo
Mas vivia em um mundo perfeito, não precisava nem exisitr.
Entendi a morte, aceito. Desde o começo era ela com seus avisos
De que aquilo não viria, e que o talvez não é um porvir
De um amor ideal incapaz do real que o tem desfeito...
2
Pois como em nascentes, você surge misteriosamente
No horizonte, nas palavras que sou incapaz de dizer,
Que contemplo em meu final de dia, minunciosamente...
Em cada linha de cada tarde, vejo então você nascer
Ao por do sol, no melhor impossível, de lástimas minhas
Vem logo assim, em contraste, pra aliviar essa tristeza...
Que há muito tem sido você, remédio de minhas alcunhas,
Inventadas por quem não acredita (eu), também dessa minha incerteza,
Desse aperto que não consigo explicar, mas sei que é você à porta
Nem avisou que viria, logo assim em correnteza
Desaguando nessa estiagem sem esperanças...
E a banda tocando em frente ao lago espelhado, sonho realizado
De uma cena perfeita, ao por do sol, de um amor ideal e certeiro
Que nasce até em meio a incertezas e desespero...
3
Te amei mil vezes em surdina...
Imaginei-nos em paisagens feitas de luz...
Vi o seu contorno, a silhueta de seu rosto, levemente...
Vi todos os dias em um clarão que me veio à noite...
Se nos amarmos, não haverá final feliz a se contar...
Uma das conclusões mais tristes que me pesam...
A maior reticência que me vagueia...
A esmo nessa imensidão de apertar a garganta...
Te amei mil vezes em surdina...
O passado e o futuro de mãos dadas é meu maior presente...
E por mais que passem, não me faz inveja, sempre mudam...
Mesmo que devagar, ou com muita luta, sempre muda...
Tudo me vem abafado e embaçado como que por excesso...
Dependo dos intervalos em que a falta de claridade e sua abundância me cegam...
De uma coisa que não existe, que não tem cor, nem nome...
Porque toda exceção é uma escassez...
Por isso te amei mil vezes, em surdina.
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