02/12/2011



If in every act there's something good
I haven't done all the good things I could
And more than ever I know that's not true
Are there any good things left to do?
Duas palavras
me metem medo
tudo e nada
dois abismos
inversos e
opostos
que não
me olharão
de volta, se
o fizerem
infelizmente
não sou eterno.

Se sou mero
intermédio
entre tais
de uma tentativa
de adaptação
ao que devia
sentir para
então levar
adiante
talvez que
eu levasse
sem sentir...

Adiante o que?
Adiando. A que?
Sentido.

28/11/2011

Agora me parece
que tudo
é um desafio:
comer algo
sair da cama
escrever uma
palavra
refletir por
um instantinho
qualquer passo
pensamento
sombrio.

Agora me parece
que entendo
menos ainda
que supunha
o simples já
não é fácil
me forço
a esquecer
uma rotina
e também isso
virou rotina...

O agora só
consegue me
parecer, só que
me cansei
das aparências
das mentiras
que me obrigo
a acreditar
das promessas
que insisto
quebrar
de cada aventura
que sonho
ser apenas
devaneio
brisa leve
um instantinho.

E minha garganta
se fechando
é pela falta
de sentido
que agora
me parece
estampar
em cada
palavra
condenada
antes mesmo
de me
sair.

Desaprendi
a escutar
ou ouço
apenas o
silêncio?

18/11/2011

O envelhecimento sendo áspero
Atrita minhas lembranças...
O amor que não existe
Sem provas
É o prenúncio do solitário
Supondo dizer mais
Que boca calando-se em outra.

Futuro e passado não se tocam
Estão de mãos dadas
Com meu maior presente.

O que escrevo sendo o que penso dizer
De tantas formas possíveis
Do que se supõe entender.

O que escrevo e o que penso
Também não se tocam.

07/11/2011

Agenda 2011

Escrevo nos dias passados de minha agenda
Para que não mais me passem em branco
Escrevo qualquer coisa, escrevo nas linhas
Tentando ocupar o opaco de me ser
Escuro e indeterminado.

Não vai sobrar nada
Nem uma linha
Depois decido
Se possui ou não
Sentido.

Fazer me ocupar preenchendo o branco
De uma possibilidade daquelas
Até porque não sou eterno
E já não me importo em me repetir
Vou repetindo além de qualquer coisa
Repetida além de mim.

Transcreverei depois aqui
(Aponta para o coração)
Pra eu me mostrar o que penso
A respeito de mim mesmo
Se é claro, eu conseguir.

Me aguardo.

06/11/2011

A minha língua é um olvido
Brinco com os sentidos
Quando criança ouvia o nítido
Pesar de um vazio.

Acordei num mundo de clarezas
Incompleto e amanhecido
Toquei no frio e desconhecido
Sentido indefinível.

Pois eu me contradigo
Em todos os gostos do antigo
Que me lembram uma intempérie
Grave e desacontecida.

03/11/2011

Paradoxo abstrato

Eu morreria por um motivo pra viver
Sofreria por uma falsidade
Cada vez menor que as outras...

Até quando acerto é por engano
Não costumo a lembrar de ter me esquecido
Se me faz diferença, são pelos mesmos motivos
Ao máximo quase lá.

Confuso até na dúvida
Nem dela tenho certeza
Sem ela não poderei saber
Se além dela há apenas outra
Quem sabe até uma verdade
(Ainda que eu não precise dela)...

O tema é indefinido
Me falta o objeto
Não se chama a quem não tem nome
E que tudo fosse colorido
Que eu rime ou me passe por esperto

Haverá dor infame
Escrita apenas em vermelho.

Porque me contradigo de muitas maneiras
Nem tudo é perfeito
Mas um círculo talvez seja
Mesmo que a ele eu nunca tenha visto
O começo supõe do fim
Outros recomeços...

E pra ser sincero já não concordo
Com o modo em que comecei
Mas preciso terminar sem motivos
Mesmo já tendo começado
Pelo fim das lembranças pela metade
Quase lá.

22/10/2011

Escritos errados
À pessoa errada
Uma carta mal endereçada
Pois, como sabem...
Tem sido assim
Ao máximo
Quase lá.

Notas de um suicida em remissão
Pois retorno ao mesmo ponto
Em que me perdi
Ou encontrei
Círculos cada vez mais...

Que prefiro me lembrar pelas metades
Na verdade, nem um pouco.
Que já não existe
O perfeito.

Já não durmo, já não sonho
Não me lembro de ter esquecido.

E os indícios de virtudes
Sufocados por travesseiros
Olhos vermelhos
A porta não se fecha
O quarto é escuro
A noite uma lembrança.

Brinco com as palavras
Já não sou criança
Meus domingos em praças
Ficava aborrecido...

Eu poderia...
Mas não é importante,
Digo a todos: não é nada.

Eu devia ficar calado
Sem desculpar-me
Ou me ver obrigado
A apagar o branco
Da possibilidade não traçada.

Sublinho minha sobrevida
Em uma continuação
Do próximo capítulo
De uma oração...

Mas entro em cena
Com apenas um papel:
Não saber rezar.

Se há um deus
Que me compreenda
Até porque não sou eterno.

E chamam isso de vivência
Não há o que perdoar.

10/10/2011

Teatro sem vampiro

Que agora retorno pelo hábito
Repetindo, repito além do repetido
Claro que sei o preço
É maior que imagino.

Se não, ao máximo quase lá
Me desfaço aos muitos
Não me lembro dos dias
Em que me importava lembrar.

Insisti nas reticências
Prefiro o inacabado...

Perdi as referências
O meu tema é indefinido
Não pelo mistério
Talvez pela fraqueza
Mas digo a todos: não é nada.

Entre a dor e este nada
Eu ficaria com a dúvida
(Sofrer por absolutamente nada)
Pois o mundo conspira
Contra os que não escolhem...

Minha auto-indulgência é justificar
Tanto a mim quanto ao que não sou
Tem sido, na verdade, uma penitência.

Mas que me é a verdade?
Preciso da mentira, do intocável
Das coisas que não me pertencem
E isso me inclui a mim mesmo
Querer fora de mim, poder dentro de alguém.

(Entenda como quiser)

Que me importa o que penso?
E um triunfo, que me importa?
Do subsolo, minhas dores
Da memória, qualquer felicidade.

O sangue que desejo dos outros
É a imagem que não vejo no espelho
Preciso do que há de bom em alguém...

Sem coração e sem partido
Me resta apenas uma garganta fechando.

Eu poderia continuar dizendo
O que já foi dito
Eu poderia não ter escrito nada
Pois o belo me é o branco
De toda possibilidade ainda não traçada.

18/09/2011

Eu cavei muito fundo
E agora me resta um escuro
Do que não descobri
Estou coberto de mentiras...

Não espero encontrar
Nem ser encontrado.

Eu devia dar um fim nisso
(Devia estar agradecido)
Mas insisto, me martirizo
Por um perdão desmerecido.

Já não acredito no bem
E não consigo ser mau
E quem me dera se o tudo
Me fosse permitido...

Um domingo que não passa
(Uma rua...)
Um peso na cabeça
De uma memória
Que um dia foi leve.

Tem sido assim
Mais ou menos assim
Na verdade nem um pouco...

Não é dor
É uma garganta fechando.

Quero o que não posso ter
Tenho o que não quero poder
Se penso na morte é porque estou vivo
E sonho acordado
Durmo com a verdade
Mas quando acordo, não me lembro.

Se me entristece esse desperdício
Não me importa
Mas se assim o faz aos outros
Eu devia dar um fim nisso.

Com um passado de negação
E um futuro nulo
Esqueci de me lembrar
Não me lembrarei de ter esquecido.

Gosto do que é simples
Mas não é fácil.

O que escrevo começa interrompido
Termino as palavras que inacabam
Um zunido no olvido
As aparências atuam.

...

07/09/2011

Reciclando um desejo antigo

Já não sei se é perder tempo
Preocupa-me agora a possibilidade de vê-la
Qualquer hora
É ter-te em sonho...

Jamais uma qualquer.

Das forças que preciso
Ou fraquezas que não consigo evitar
Tem sido assim:
Ao máximo quase lá.

Que agora prefiro me lembrar pelas metades.

22/08/2011

Vão interpretando meus silêncios
Como bem entendem
Vou levando a vida
Sem saber para onde a levo...

Julgam alguém que nem sabe ser
Pois o mundo conspira
Contra os que não sabem escolher.

E se me achasse o suficientemente bom
Terminaria com uma rua daquelas.

Ao máximo quase lá
Mas ainda estou aqui.

Qualquer barulho é o teu nome
Teu nome em qualquer ruído.
A música que ouço é apenas um aviso:
Eu devia estar agradecido.

13/08/2011

Um livro que não me livro

Não me livro da liberdade de me anular
Quero apenas o que poderia ter sido
O que é e o que sou me é desconhecido
Minha vida, relógio parado, tempo a passar...

As duas vezes em que acerta o horário
Me são amor e um dia perfeito
Que nunca verei, mas está tão perto
Não me passa, um ciclo imaginário.

Voltas que não me levam a lugar algum
Estive preso por poder tanto
Mas não fazer nada, um ser nenhum.

Pois me repito, e o que poderia ter sido,
Mundo ideal e egoísta; sozinho,
Me resta apenas uma garganta fechando.

Me desculpe e obrigado.

02/07/2011

Eu passei muito tempo pensando na mesma coisa
Mesma coisa que me foi pensada em muito tempo passado.
Porque eu sempre me repito.
Não tem passado, não.

Ainda que eu não seja nada, estou errado.
(Digo a todos: não é nada...)

As coisas que eu podia ter falado
Mas tenho deixado
Passar.

Não passam, não.

Qualquer chance desperdiçada
(Por levar a vida em stand by)
É uma rua daquelas.

São todos os dias-fim-de-tarde em que fiz um sonho
Acordado.

Bem que podia passar...

Que pensar muito tem me deixado burro.
Que não fazer nada tem me feito muito.

Qualquer lugar é o seu nome
Seu nome em qualquer lugar.

Eu devia ficar calado.

Mas no espelho
Meus lábios se movem
Não ouço, não falo
Leio seu nome

Limpo a privada com uma ponta de sorriso
Só pode ser egoísmo
Então relembro o que um dia li:

Jamais uma qualquer.

30/06/2011

E agora, e a hora?

Passou. Qualquer momento

Pra trás.

Que não esperar nada é não saber por que vivo;
Que não ter feito nada por algo bom é ser ruim.

Eu já não sei se sinto muito.
Se vou, se fico...

Eu devia estar agradecido.

Mas nada mais faz sentido.

Não consigo me desesperar
Nem com uma garganta fechando.

Pior que o choro é esse silêncio difícil.

Me culpei a vida toda em busca de um perdão

Desmerecido.

E que o bom tendo me ido
Me sobrou o amargo do egoísmo
De supor mais.

Tem doído um pouco
Mas é uma força que preciso
(Ou uma fraqueza que não posso evitar)
Talvez não entenda, mas não ligo.

Me desculpe e obrigado.

24/06/2011

Blind

Vou explicar como tem sido
Que na verdade é um como não é

Um regresso sem movimento
Ao que inventei.

(Sem que ao menos eu tenha
Existido)

Foi nesses sonhos
Que vêm pelas metades

Me lembrei.

São noites mal dormidas
Ou em que dormi muito.

(Não consigo escrever nada bonito)

E se não é piedade nem lamento
De que me faltam vidas
(Ao menos uma, que seja)

É apenas um relato em silêncio.
De mim para mim mesmo.

Não me restam opções
Brinco com as palavras
Mas o que entendo é sério...

Apenas tristeza é muito fácil
(Difícil me é garganta fechando)
Construir castelos de areia com meus enganos...
Queria ver eu tirar algo bom disso.

Que na verdade não são círculos
Mas um caminho sem volta
De uma linha reta que não vejo o fim.

Eu poderia botar um ponto para não ir mais
(Apenas por curiosidade)
Mas prefiro que ele me encontre
E sei que é o único fracasso que evitarei.

(Se seria um fracasso?)

Não saberia dizer se as coisas têm sido assim
(Me repetindo repito além do repetido)
E de um infinito que poderia ter sido
Talvez, então, algo bonito...
Defini e se tornou.

"Aquela felicidade na troca de olhares
Qualquer rubor no rosto e um consentimento
Pode parecer bobeira
Mas me bastou."

Já não é.

Mas não para mim,
É Mentira mil vezes contada
Até porque não sou eterno...

Qualquer coisa além.
Acredito que sim.

14/06/2011

Quis provar da maior dor
Para que as outras me fossem pequenas
Covardia se tornou arma
E a nulidade, força.

Quis de volta a nostalgia
Da saudade que já não volta
Passar do tempo se tornou medo
Me anulei em uma lembrança.

Dicícil aceitar que hoje em dia
As coisas são fáceis
Difícil aceitar que as coisas devem ser aceitas
(Seria mais fácil não aceitar?)

O que senti se tornou uma brutalidade impossível
E meus sonhos se misturaram com realidade:
Quando consigo me lembrar, me vêm pelas metades
(Não fazem questão de fazer sentido)

Me vejo, mas sou invisível
Caminho, mas não vou a lugar algum
Escuto sem que haja barulho
Decidi que tudo é difícil e doído

Menos para mim.
(Se estou me contradizendo?)

Pois já não sou há muito
E não tenho sentido além
Do que não tenho sido;
Aquém do que não sinto ser...

E se isso fosse alguma coisa
(Olhando nos olhos)
Eu não saberia dizer.

Esse silêncio já não me faz bem.

09/06/2011

Cicatriz Sobreposta

Me ocorre raramente, meio epifania ou clarão
Que meus problemas são no máximo pequenos
Ainda que insolucionáveis de cura; venenos
São raiz de uma (ainda que impossível) solução.

Pois vejo a quase nulidade de um desejo
Como o arrendondamento para menos que sou
(Em círculos, sim, o que no fim me sobrou)
De uma noite qualquer coisa qualquer que almejo

Você como noite de meus venenos
É a falta de intenção de dor sentida
Criei em contra partida

(A tudo que, sendo eu limite, a ti limitaria)

No fim-de-tarde-todos-os-dias que fiz um sonho.

E a partida nula de o que retorna como desejo
É em círculos insolucionáveis (ainda que possíveis)
De um amor por acidente (daqueles irresistíveis).

No fim de qualquer estação nostalgia que guardei
Cartas de amores não enviadas...

(Voam em qualquer por do sol que nos faltou um dia)

E que não me importando os fatos
A verdade apenas eu preciso saber.

Ainda que não me importe
Ainda que eu sonhe com sua imagem
Ainda que me seja algo (Digo a todos: não é nada...)
Ainda que todos os aindas de todo eu que já não é
Que já não sou...

(Qualquer coisa além de mim)

Esse escuro universal que é mudo e cega
Mas que dentro de mim vê

Apenas eu preciso saber.

E cada estrela não mais longe que um sonho
(Ainda que você me amasse...)
É um sorriso que não consegui mostrar
Me é uma garganta fechando.
A impossibilidade talhada em meus dizeres
Dizem em ir e voltar, qualquer lugar

Mas não vou a lugar algum.

E o perdão que talvez em entrelinhas suplico
É pelo sangue derramado
De qualquer brincadeira de criança que me voltou

(Me lembro de ter sido feliz)

Estive a monologar comigo por muito tempo
E aprendi a me entender, me respeitar
E não me culpar por ser algo que me foge

(O pássaro da liberdade que não mais voou)

O que me foge é qualquer coisa além de mim.

Quantas vezes irei repetir?
Não me importa, no fundo...
É repetindo que repito além do que foi repetido
E medir falta de medida desmede o que foi medido.

O pequeno ponto em superfície de mar
(Sentimentos profundos em raro chegam à superfície)
Era um bilhete escrito, uma história
Que até aqui, por outras maneiras, contei.

E se minha solidão cansar da proteção
Que a si mesma impõe
Para criar qualquer coisa que sinto
Para não mais me sentir sozinho...

Estarei lá.
Qualquer lugar.

Lembrar é supor que se esquece
E eu não me lembro de ter equecido.

Você qualquer coisa que me é só uma.
(Jamais uma qualquer...)

Você jardim secreto que ainda me falta chave
Fechadura-passado de qualquer melancolia enferrujada
O seu tempo passa de outro modo que o meu
Mas ainda espero do lado de fora
(passando na mesma rua que não me passa)
Em tempos modernos que escrevo

Seu nome em qualquer lugar.
Qualquer lugar é seu nome...

E que o piano em surdina de qualquer cena romântica
É a definição perfeita de como os dias têm sido:

O silêncio que me diz muito
Ao máximo quase lá.

06/06/2011

O produto do meio
Não acredita na sua influência ao meio
Vive não em um meio
Mas sendo meio

Talvez menos...

Tem gente que vai até certo ponto
Mas eu botei um ponto pra não ir mais...
Estranho que na vazia infância
Nos sentíamos por inteiro.
O menino que tropeçava por não saber andar
Tropeça ainda por não saber viver...
Qualquer gosto de amargo na boca
(Um dia apagado)
Passou em brisa e me lembrei
Me é garganta fechando.

Vida engraçada
Começa acabando
Pra terminar em reticências...

30/05/2011

O que escrevo não é nada
Carta de amor não enviada
Para alguém que, agora
Não sei se cheguei a amar

O que escrevo agora
Para alguém que não é nada
A carta de amor, se cheguei a amar
Não sei, não foi enviada...

A carta de amor que escrevo agora
Para alguém de quem não é nada
Não sei se foi enviada

Se cheguei a amar...
Se cheguei a escrever...
Se cheguei a ser alguém.

Não pode ser fraco
Não consegui reprimir
Não pode ser mentira

Ainda que eu tenha escondido a verdade.

23/05/2011

Meu cinismo só foi até certo ponto
Já não passava mais nada, era tarde
E que se eu não me fizer claro

Um poste apagado.

Qualquer ideia genial não seria nada
Se quem a entendesse não soubesse explicar
Continuaria desenho na areia ou na espuma do mar.
Nuvem em forma de sonho antigo
Que não consegui lembrar.

O que é simples nem sempre é fácil.

Intenção só importa quando deixa de ser
Consegui minhas reticências
Mas termino com um ponto de rua
Daquelas.

Já me perguntei em dias de infância
Pra onde vai o pra sempre que nos faltou?
Sinto que fui feliz, apenas.

Agora simplesmente não sou mais nada.

...

Mais todos mortos e eu vivo no mundo,
Quando saí da prisão
Vi que não havia ninguém fora
Vivo de trocas.

15/05/2011

E que fique bem claro:
O pior não é ser invisível...
Havendo qualquer chance possível
De um mal causado, ainda que raro

Vou levando a vida em standby.

Em tempos modernos em que escrevo
Seu nome completo

No google.

14/05/2011

Passado que passa em passos (ou círculos)

E, então, lendo as coisas que escrevi,
Me envergonhei por clamar por uma vida que não possuo
(Entenda como quiser)

Me envergonhei por cada palavra ser uma prece para um velório
Que ainda não sinto a todo instante que qualquer instante
Já não me faria diferença...

Sim, o pior não é morrer.

E qualquer instante agora me é todos os instantes juntos
Até os que não me vieram e os que não me virão.

Às vezes não sinto qualquer coisa além de mim
Com isso, angústia e ansiedade
Não sei escolher.

E quem permite opções tortura-me sem o saber
Do mesmo modo que seria déspota se não o fizesse...

Afinal, nem um nem outro, pois não sei escolher.

Minhas cartas de amor ridículas eram notas de suicídio
Me enganei por muito tempo
A imagem através do espelho não é mundo algum.

Sim, o pior não é o nada
É sentir-se nada ainda que não o pior.

Insisto em dizer que não é nada, que vai passar.
(Mas como, se me é uma rua?)

Não esqueci a dívida
Essa dívida que poderia muito bem ser um nome.

Quero me livrar do peso de meu próprio corpo
As coisas que mais me importam não têm importância
Mas não farei nada para que isso aconteça
(Não sei escolher)

Entenda como quiser.

03/05/2011

Sempre senti que tornaria-se passado
A esperança de perder a esperança
Vou afundando sem chegar ao fundo
(A mesma rua que não me passa)

30/04/2011

Vou ser sincero:

A felicidade alheia me ofende profundamente...
Não acho justo em momento algum que, em público,
joguem em minha cara, sem remorso ou culpa

O que não consigo alcançar.

Vou ser sincero:

Gosto de criar mentiras sem nenhum motivo...
Não acho justo em momento algum que se precise
De bons (ou maus) motivos pra se criar uma

Afinal, existem mentiras boas
E péssimas verdades.

A melhor parte, deixo aqui:

Já devia ter largado isso, já não sei se consigo...
Não acho justo que em momento algum eu admita
Que acabo me encontrando em algo escrito

Por alguém que tento não ser.

(Que acabo me encontrando em algo escrito
Por alguém que tenta não ser)

...

25/04/2011

Maneiras

Correr no suspenso de meus passados que inexistem
Fechar os olhos que são molduras de quadro inacabado
As portas que entrei eram janelas
De vista a todos os dias da rua que havia passado
(Se sou engraçado?)
Rua que não me passa...
Atrasando o próprio atraso
Medir falta de medida desmede o que foi medido
Eu poderia correr sem rumo, mas prefiro andar
Em círculos perfeitos...
De arremesso a qualquer tacada
A máscara do disfarce já não me sai
E quem sou eu senão muitos que finalizo?
Não espero mais nada, a fonte secou
E o canto de antes agora é mudo
Vejo um preto-interrogação de amanhã
Que é também um pouco dos dias
Que por não me passarem não vão a lugar algum
Meu corpo é uma dívida
E qualquer simpatia, uma solidão
Se protegendo de si mesma...
Fechar os olhos já não me faz diferença
Não que eu saiba o que vejo
(Quem sou eu senão muitos que inventei?)
Escutei de minha própria boca independente
Amar é o mais nobre dos esquecimentos
Entendi porque tudo me vinha pelas metades...
E você que não entende eu não querer nada
Ser egoísta o suficiente em não amar por mim.
Talvez tenha me importado vez ou outra
Mas é qualquer coisa além de mim, sim...
Indefinível, porém inteligível
Ainda que o perceba por sentidos
(Sentidos de cidade pequena)
Dos olhos por olhos de um mundo cego
Pois quem cega acredita ver...
Pode ter ficado para trás em algum dia que viria
E o que me faltou pode não chegar.
Antigamente eu era qualquer coisa
Qualquer coisa além de mim
Sentindo isso novamente
Ainda que não houvesse sentido antes
Me é agora uma garganta fechando.

23/04/2011

Sei que tento não tentar
Sei que só não desisto de desistir
Mas quero deixar bem claro ao ir
De encontro ao que me faz desencontrar...

O que sinto são ruas de infância que não passam
O que sinto é me repetir de todas as maneiras
É saber que estou sozinho mas não me sentir
É a mentira mil vezes contada que ainda é mentira
Todos os dias de palhaço com lágrima pintada no rosto
De um teatro de mímica onde se acabou a luz...

Se há possibilidade de me usar do mal
Só de havê-la, não a mereço...
Naturalmente, mereces algo melhor a isso
Que um que sinto ser qualquer coisa além de mim...

Não mereço sentir
E se eu pudesse me controlar...
E não penso que deva aceitar
Qualquer coisa além de mim
Que, não me tomando pelo pior
Ainda assim sou sem valor.

Pois sou sequer qualquer coisa.

Sim, o pior ainda é o campeão das perdas.
E você, digna de uma vitória
(Ou então qualquer coisa que queira)
Ai se pensa como eu
Que limpo as privadas com sorrisos...
Que dois nadas já é mais que nada, sim
Mas como irei saber...

"Por aqui, saberia...
(Aponta para o peito)"

22/04/2011

Qualquer coisa além de mim;
Fora das luas que propõem lembranças

Mal vindas...

Por dentro de todos os nadas que são sempre algo além

Além do mesmo nada.

Como o nada de tua ausência, desce em crescente
Senta-se ao meu lado.

E que não são os olhos nem a lembrança
Que a tornaram permanente.

Me repetindo é repetir além do repetido.

Não consigo escrever o que penso
Até quando penso em palavras.

E não haveriam palavras que me bastassem a você
Eu, que não declaro, que estou de prosa

Também não confesso.

É óbvio que não, é tão sutil...

Não há tempo, me sinto suspenso
Com os pés enraizados ao chão.

De todos estes opostos forçados
Não há um que me atraia
O que escrevo é repulsa
Do que não sei dizer...

Os mesmos olhos do céu que me são lua
São todos os olhares trocados
Entre eu e qualquer pessoa
Principalmente...
Que me foi e ainda é garganta fechando...

Sou engraçado... Sei que estou sozinho...
Mas me sinto em conversa
Com você que me está ao lado:
Ausência.

Não me lembro a última vez que me senti sozinho.

E os lugares cheios me trazem solidão
Ao modo que me sinto completo numa cena
Entre eu e qualquer imensidão...

Não falo de ti
Que me foi e ainda é moldura de possível arte
Mas que não sei se é real...

É, parece que há muito tempo.

Sim, me contradizendo.

As ruas que passei... Não passam.

Sou engraçado, brinco com as palavras
Como se o som importasse
E o significado não fosse nada...

Mais um nada adentro de tantos outros
Que se já me é tanto, como pode ser nada?

E todas as rimas que faço são cartas de amor ridículas
Trazendo sorrisos palhaços com lágrimas pintadas
Em quadro velho de infância mal ladrilhada
Qualquer menina bonita, que me passa na mesma rua
Rua que não me passa...

Acho que não sei sentir.
Talvez isso me faça sentir muito.

E tudo que escrevo são arremessos em quaisquer tacadas
Noites não dormidas em que se pensa na mesma menina
Que faz com que eu retorne em mesmas palavras
O mesmo que sinto de diferentes maneiras
Das luas que já não me dizem mais nada
Porque lua não fala (me contradizendo)
Essa lua que podia muito bem ser menina bonita
Ou mais um nada (que não me pode ser nada)

Sou engraçado
Mas não tenho graça.

Acho que não sei mentir
Como, se vivo me enganando?
Minha única certeza é a minha maior dúvida.
Eu que também não sei dizer verdades...

O eterno improvável da maldição de Orfeu
Eu a vi evaporando de minha cabeça
Com qualquer olho além do meu
Que pelo olhar amaldiçoou-me
E chorei em lágrimas de ferro.

Sim, te amar é improvável.
Com minha única certeza de duvidar
Faço de ti meu maior mistério...

Desconheço-a e, no entanto,
Quero conhecer.

Não é estranho?

Não se prova mistério
Que me foi e ainda é garganta fechando
Rua de infância mal ladrilhada
Havia um aviso:

Proibido passar.

20/04/2011

Só não desisto de desistir
E qualquer coisa além disso, círculos...

Vejo no céu, vejo no escuro.
Vejo céu no escuro das noites não dormidas.
Vejo paisagem sem horizonte.
Não estou complicando.
Estou suspenso.
Suspeito.
Fui de arremesso a qualquer tacada
Devagar vou divagando
Até não me sobrar mais nada.

Só não desisto de desistir.

16/04/2011

Olho por olho
Pois quem cega acredita enxergar

E o mesmo olho que não mais vê
O mesmo olho que viu
É o que mais enxergou.

Agora, sem visão
Agora vê.

12/04/2011

Que fiz da memória das cartas de amor (ridículas) que um dia escrevi?
Que fiz da lembrança do escárnio (ridicularizando) da menina que as leu?
Não me importa mais o que num tempo
Foi o que mais me importou?

Que fiz da imagem de céu em turquesa
Que o óculos de mãe fazia?

E aquela menina, sei muito bem quem
Por menos que eu a conheça
Que fiz do que senti por ela em todos esses anos não passados?

Empederni. Pisei no prego e esvaziei.
Fui tomar um trago e nunca mais voltei.
Deixei a conta sem pagar.

Mas não esqueci a dívida.

10/04/2011

Lento desespero

Que tipo de incentivo eu precisaria?
Não sei...
Não sei se me falta fé
Amor...
Ou qualquer metafísica.

Até porque vivo de imaginar outras vidas
Que não uma linha reta.
O pior não é morrer

É sentir-se morto em vida.

09/04/2011

Me parece que não há mais nada a se escrever
Outros nadas adentro de meu grande nada...
Não sei dos problemas de altos e baixos
Meu impulso não é uma linha reta

É apenas um ponto.

Não tomo partido, não revido a ofensa
Que me impingi por nenhum motivo

Mas imagino-me a socar uma parede branca.

Detesto com a réstia de vontade esses olhos por olhos
De todos os dias de meu mundo mal interpretado
Sou tão vil quanto qualquer verdugo mascarado
Em século passado que ainda vive.

Ansioso por um sonho diferente e leve
Além dos tédios de meus dias intransponíveis
Ligados em dúvida por passado, relegados ao futuro.

Um furo da vida que não me passou
Sangrei por acaso...

Sabe, de todas as vidas que não tive
A que tenho é a que mais me falta...

E não soube dos amores que pude ter
Me interessam os impossíveis
E deixo me excomungarem:
Sem querer sou histrião.

Mas quem faz piada é essa vida...

A única certeza que levo
É minha maior dúvida...
A mesma pergunta desde o primórdio
Dia que passei até dela duvidar...

Mas guardo aqui, pra mim
Se contei foi acidente sem vítima
Numa rua de infância mal ladrilhada
Era proibido passar.

08/04/2011

Podem rir,
Achar engraçado
é fácil quando se tem alguém ao lado.

As janelas que são moldura de outras vidas
Em quadro a óleo que se borra ao simples toque
Faço arte abstrata, sem querer...

Mas é difícil eu me sentir tocado.

Rumina em minha cabeça uma ideia antiga
Antes fosse obsessão, perseverança, eu insisto
Em dar parte ao pensamento abstrato.

Vou jogando experiências, sons, imagens,
Uns aos outros se tornando vida que não se vive
Apenas sonho.

(Será que me falta Deus, amor, ou será que crio?)

Do resultado, sobram minhas pretensões interpretando
O agora que se foi antes e será, depois, ontem...
Projetando vidas pois me falta uma

Crio o que não posso ter
Me destruo.

Parece que meu pensamento está sempre em reforma
Mas de material tenho apenas uma tábua
De palavras ininteligíveis cravadas sobre outras

Não sei se devia continuar, descansar do descanso
Mas estou dando dois passos para trás para avançar um...
Atrasando o próprio atraso...

Podem rir, me fiz de palhaço sem sequer me vestir
Estou mendigando amor com palavras mal postas
Batendo às portas de estranhos milionários

Que me recusam até um não.

Um guarda veio fustigando qualquer ofensa
Todo à francesa, mas falando em alemão
Não posso conceber o dono da mansão.

Outras vidas...

E o dinheiro que me falta ao ônibus
É o mesmo que me faz passar
Nas ruas de minha infância em chão de terra...

07/04/2011

Meu vinho-coração quebrado...

Seco.

Eu que não posso chorar em meu próprio ombro...

04/04/2011

Tudo que escrevo não é mais que uma noite mal dormida.

Você, que sem lembrar me passou

Meus dias descontados de outros que não vivi direito
Minha insistente tautologia acerca do nada que vejo em tudo
Todas as cores possíveis no preto e no branco
E um conselho que não me lembrei e agora vejo anotado

Em um bilhete pregado no espelho.

Sequer o meu reflexo aparece,
Não me desmereci para poder ser negativo
Fui desde que me lembro, nulo, antigo...

Por isso nem precisava me lembrar; esquecia...
Recordação que me era algo novo, lembrava
De que eu mesmo havia escrito o bilhete
Que agora em minhas mãos, em branco...

Deixei no espelho para me esquecer.

Meu reflexo que está em qualquer lugar
Pode estar até em todos ao mesmo tempo
Mas como achar que estaria através de um espelho

Que sequer é lugar.

Nos sonhos em que amei, não me foram verdade
Pois amei em realidade os sonhos
Que agora já não me lembro.

Sequer são lugares.

E eu repouso minha cabeça no chão frio
Tão gelado quanto o que me sobrou,
Que, não sabendo se foi nada, mesmo que fosse
Insisto em tomar como dor.

Talvez por não ser nada.

E eis que você, na calçada, se vira com estranha impressão
Seu rosto bate no meu rosto, sou um estranho.
Curioso, talvez, por não ser nada.

E olho para cima com o barulho do avião
Já estou velho pra essas coisas, mas tento achar
Lamento não ter achado, não cresço...

E todas as ruas que me passam, ou quando passo
São as mesmas ruas do meu passado
A mesma infância cheia de vazios
Ladrilhada por sentidos de cidade pequena...

E ao meu redor, o que ainda enxergo
Forço outra paisagem sobreposta, não cresço...
Qualquer coisa colorida além desse branco e preto
De todos os dias de meu passado.

Tanto sorrindo quando chorando, nem um nem outro
Pois me são o mesmo, ainda que em sua presença e dúvida
Insisto em dizer que não é nada...

Garganta fechando, vista turvando, não é nada
Foi qualquer coisa, você que não conheço e que passa
Nas ruas de minha infância mal ladrilhada...

O que havia de bonito pra te contar, que guardei
Não passa, ficou cicatriz inerte sobreposta a outra
Barulhos de aviões me interrompendo o sono...

Sequer são lugares, não sei onde guardo
Não sei se me importo, dou de ombros para o passado
Que me foi e agora é uma garganta fechando...

O túmulo me aguarda
Com uma orquestra em preto e branco...

Adianta pedir perdão?
Adianta eu me perdoar?
Perdoar a ti?

Nunca culpei por mais que me sinta...
Esse nunca que podia ser um sempre.

Eu preciso terminar aqui, aponta para o peito

Eu preciso terminar o que não comecei.

31/03/2011

Pathos no passado...

Eu queria ser um dia o que foi outrora
Passado em pássaro de quadro inacabado
E de sombra com seu voo intercalado
Muda pelo tempo, molda pela moldura.

Eu queria ser uma noite que não agora
Futuro em subterrâneo de horizonte dúnico
Qualquer fagulha súbita de luz em ponto único
Que faz diferença em escassez e que se devora.

Virgem de sentidos é aquele que ainda é sombra
De fagulha-pássaro da caverna que se pensa céu
Descrença se crê não só no contrário, deslumbra

Porto das noites e dias em linha de ponto único
Qualquer luz que é grandiosa na escuridão em véu
Do tempo-ilusão da mentira em imperativo (categórico).

Pessoando novamente.

Não me vem mais nada
Mais nada além do nada
Nada além do mais nada além do nada
Mais nada além do nada além do mais nada além do nada
Nada, além do mais nada, além do nada, além do mais nada além, do nada.

Então que a vírgula me faz essa progressão...
Esperava tudo, menos isso do nada.
Não esperava vir nada do nada.
Nem além do mais nada
Nem nada além do nada
Nem além do mais nada além.

E se o nada é a possibilidade de tudo,
Haverá sempre outro nada depois do nada.
E depois de tudo, outro nada.

Não sou nada,
Não sou nada além do nada,
Nem nada além do mais nada além,

Nunca serei nada além do mais nada,

Não posso querer ser nada além do mais nada além do nada.

À parte isso, tenho em mim todos os nadas do mundo
Do universo, de tudo e de nada.

Sou o maior nada de todos os tempos
E ao mesmo tempo, nada...
Ridiculamente desavisados
Desavisadamente ridículos

São os carros-parte-de-mim que passam pelas madrugadas não dormidas

E também os latidos-parte-de-mim dos cães quaisquer coisas das madrugadas dormidas.

Eu sou a hora em que se compra pão antes da aurora.
E também não sou semáforo em piscadas amarelas
Nas tardes de navio engarrafado do escritório empoeirado
Denunciado pela luz ali ou aqui de qualquer permissão persiana...
Sou o divórcio de um casal que antes foi feliz
E também não sou o acidente que permitiu
Que aparecesse em foto alheia tal casal, desconhecido
Mas eis que a olho e fito a dupla de sorrisos
¨Provavelmente tinham acabado de se conhecer¨, penso comigo
Penso em muitas coisas e que podia ser, na verdade,
Conciliação de amores que não se viam desde nunca.
É que às vezes a saudade vem, penso, num sorriso...
Sou os farelos que os pombos rejeitaram de alguém disposto
Não sei o que grãozinho que um levou consigo.
Mas não sou a criança que presenciou isso
E também não sou sua primeira queda de bicicleta
Talvez o asfalto que a ralou o joelho
Ou o impacto que permitiu a quebra de um osso...
Mas não posso ser preocupação de mãe
Não posso ser as chegadas tardias de um filho adolescente
Seu primeiro porre, só se fosse pra afogar minhas mágoas...
Talvez a bebida barata deixada pela metade em bar vagabundo.

Alguma lua intrometida propondo lembranças mal vindas...

Me culpa esse azul-mar de faíscas formando espelho
De quaisquer distâncias que findam aos olhos, não consegui...
Nadei com a vista até o fundo dos dedos que, ao peito, aqui...
Fez aperto, subiu à garganta e empurrou para frente o olho

(Mas não consegui)

Turva. E a névoa real que me diz paisagem nova
Tolhe qualquer pensamento passante e molha
Drama qualquer pra qual quem se sente canalha
Por engolir em distração uma lágrima antes alva...

Horizontalizado na ausência de possíveis águas
Não digo do orgulho, nem de fé desacreditada
Que do começo, talvez, era ânsia desavisada...

E a visão que confunde azul d´água com ar
Turva só de ter lembrança-drama sem querer
Na culpa de querer nado a essa linha do esquecer...

Sim, querer é esquecer.

II

E que escrevo pensando sentir sempre o mesmo
Me aparecem imagens emolduradas que flutuam em vazios
Não me dizem nada mas sem elas não haveria

As mil palavras pra eu dizer que valem mais que elas.

Que agora que é noite, todo o meu pensar

Também é pardo.

(Se tivesse qualquer chance de te dizer, seria gago)
Existem sorrisos que são palhaços com lágrima pintada no rosto...

Se aumenta o sono, também o que escrevo é um retorno
Ao que sempre fiz mesmo antes de nascer...

E a cabeça se desligando, balbucia algumas palavras
Cansadas, ruminadas, qualquer coisa pra repousar
Esse ninar próprio e desentendido que vou repetindo

Sem me importar.

Não me faço diferença, mas abro os olhos

E tudo se difere do que sonhei ou esqueci sonhar.

Se faz diferença ser eu, faz pra outros.
E quem sou eu, senão muitos que desconheço?

Veja só que nem sei mentir.

Acordo e sigo duas rotinas, a de me lembrar do sonho
E a de me lembrar por que tento me lembrar do sonho.
Chega a hora do embaraço, até porque não sou eterno
E quem sou eu, senão muitos que finalizo?

Mesmo sem querer, mesmo sem poder, vice-versa
Com ou sem verso, que sei que estou é de prosa
Comigo e alguma parte minha que não sei mudar.

Mas ainda limpo a privada com o meu sorriso
E não consigo rir nem disso.

É, tá difícil...

28/03/2011

III

Sinos agudos e abafados em surdina...

Ele a carrega adormecida em seus braços
O pequeno elevador sobe lentamente
Luz diáfana aos olhos, intermitente
"Quase lá" ele pensou, aos estilhaços...

Mas engoliu o choro.

IV

O som de um pântano distante, insetos em sinfonia...

O guerreiro enfraquecido a aguardar
A besta gigante ronda em sua procura
Acabou por impingir a si esta tortura
Se atreveu, por aventuras, a se encorajar

Aguarda iminência apenas com seu cansaço...

V

Se juntaram todas as noites mal dormidas...

Sonho distante que veio de outro sonho
Piscinas límpidas que no escuro brilham
Os mesmos olhos que outras escuras viram

O quase-sono que me veio em um clarão...

VI

Me esqueci do submundo que me veio em terra...

Aflui abaixo de meu consciente e é mistério
Em qualquer momento meio eis que me vem
Uma infância enterrada de todo meu aquém...

E da terra estéril nem mesmo caminho ou estrada...

VII

Tudo que me restou de qualquer coisa como que um segundo
Foi talvez mais que este momento que agora me é primeiro...
Castelo de areia feito no escuro que se desfaz em um roteiro...
Me esqueci dos pores de sol de um lago qualquer espelhado.

E o meu reflexo era sombra opaca do verdadeiro
Entreaberto em qualquer estrelado céu ao meio
Do que esqueci, mas que o amanhã então me veio
Sem lembranças de um dia que não passa por inteiro

Dia longo e curto que por si permitiu estorvo
Me esqueci até de esquecer completamente
Que em partes muito se sente e me parece novo.

Ainda espero pelo velho que não me chegou
Como um menino novo em deja vu alheio
Em um mapa da cidade que conhecer esperou...

Perdoe-me não me sentir inteiro
Ao máximo quase lá.

Mas o que é quase para alguém que só se lembra aos meios...

27/03/2011

A qualquer coisa

I

Barulho do mar, grilos, notas aleatórias de um piano, murmúrios de conversas, noite, em surdina...

Se eu realmente soubesse mentir
Não me enganaria nem uma vez...

Se eu realmente soubesse o que é verdade
Não duvidaria de qualquer coisa que penso.

Não conseguir fixar os olhos no próprio reflexo dos olhos...
Que também me fixariam os olhos se eu conseguisse.

Achar que o sonho mal lembrado é a maior importância que se pode ter...

Se eu soubesse o que saber, onde que me ficariam as dúvidas?
E se eu duvidasse até da dúvida, teria que no fundo então acreditar em algo...

Não conseguir respostas para as próprias perguntas que me faço...

Quem sou eu, quem sou eu... Sou qualquer coisa além de mim?
E o que sei do que está além de qualquer coisa além de mim?

Sou qualquer coisa mas prefiro não ser nada.

Não saberia ser alguma coisa, não...

Vou acreditando em qualquer coisa, duvidando de qualquer dúvida...

Mas nem por isso devo ter certeza...

Tempo morto, só vou ocupando a cabeça com vazios...

Nem sei se sou, nem sei se fui, se serei
Agora não parece que estou a ser, mas e depois, será que será?
Será que algum futuro acaba ficando pra trás?
E algum passado meu nem chegou a acontecer?
Sim...

O que vivo é não aceitar que passado e futuro estão ao mesmo tempo juntos...

Sabe aquela menina bonita que foi deslumbre logo na primeira vez? Já a conhecia.
Sabe aquela noite terrível que não conseguia esquecer? Nunca existiu.

Vou em caminho de caminho nenhum, caminho qualquer, que me importa...
Caminho.


O fim da estrada, não sei, não sei sequer se tem
Mas sei que em mim ou nela haverá um fim, sim...
Que ele existe entre eu e ela e é também o impedimento
Que nos permite desconhecer um ao outro...
No máximo, um talvez.
O medo do nada, sim, mas não sei qual disso o fim...

O início já não me lembro, vai ver é como depois que acaba.
Depois que acaba, começa, não é mesmo? Ou vai ver fica acabado.
Vai ver começa acabado e nunca percebi.

O que percebo é onda que as ondas fizeram, que agora fazem outras ondas, cada vez menores...

Por que me parece que algum dia que não veio ou que passou está a acontecer exatamente agora?

Não sei se gosto mais de pergunta ou de resposta, afirmar ou negar. Mas sem um oposto, como saberia do outro?

Acho que gosto mesmo de perguntar.

Eu queria continuar, queria continuar para sempre
De não haver para sempre que bastasse...
Vou acabar parando, não sei quando, mas vou.

Engraçado que quando me vêm ideias às vezes não as sei escrever
E quando não sei o que escrever, sinto que posso continuar

Como se o tempo não existisse.

E pelos segundos que achei que não existiam, decidi continuar...

no vácuo de pensamentos, inspirações

Decidi relatar o que não encontrei
O afastamento lento de mim mesmo.
Não devo estar suficientemente a esmo
Para encontrar um rumo

E em mim poder dizer que achei...
tive um sonho dentro de um sonho

Piscinas bonitas...

25/03/2011

Coração batela de pequenos mares de aquário
Dos signos, refratário, que abaixo d'água desconheceu
Tudo que é água e depende dela por ter sido cego fariseu

Vê que tudo que foi
Foi transparente e molhado, mas se secou.

Fui acordado em praia abandonada com os trajares em andrajos
Minha barba em tamanho dos sonhos que deixei além-mar...

E se as aves soubessem falar...
Meu pensamento-cidade de todos os becos abandonados
Por onde passou uma sombra a desavisar
Corvos brancos de esperança que não sabiam voar
Em passos de criança nos seus tropeços desfalcados

Fui algum lugar, não sendo, qualquer prédio abandonado
De todas as rachaduras e exíguos quartos vazios em branco
Como que memória abandonada de um antigo amor perdido
Não se sustenta e é destruído pelo tempo, amor parco...

E agora um fluxo de carros-madrugada perpassa noites de todo dia
Dia em que renasci da vida em morte, fiz do acaso qualquer coisa
E qualquer coisa que me fosse noite, corvo branco de meus olhos vaza

Todos os prédios abandonados de toda a a madrugada em suas mudezas
Com os raros carros em buzina abafada, um grito distante, vidro a quebrar
Partes de um calmo silêncio que faz barulho, rijo em se contrariar

20/03/2011

Pessoando

Daí que uma pessoa não precisa ser uma pessoa.

Isso que faz da pessoa, Pessoa.

19/03/2011

O que me restou, além de nada
Um papel amassado com algum recado
Pra alguém que nunca existiu.

O barulho efervescente
Do tempo que passou.

Um zunido no olvido
Diz que é além do que se viu
Se senti, foi resposta involuntária...

Vontade de viver, só meu corpo tem.

Sonhei com serpentes, um templo-chácara...
Um sapo engoliu completamente um peixe grande
E um filhote de pato, ferido, não engolia nada

Ia morrer.

Um animal tão delicado, procura na água
O que não encontra no ar.

E as serpentes não mordiam, dormiam
O sono que tive elas compensaram
Não acordei disposto.

Pensei qualquer coisa pra se pensar
Que quer que saia, não será como imaginei
Se seria, já não é mais
Sou o ser que deixei.

Quebrei um vaso de rachaduras.

Uma serpente grande enrolou em meus braços
Não tive medo. Formaram-se laços
Alguma coisa que fiz, influiu ali
Mas não entendi.

Eu só encontrava varas de pescar
Queria uma lança, queria ação
Mas parecia um lugar tranquilo, ancião
Onde tudo fluia devagar....

Mas meu sonho me foi como que rápido
Acordo deslocado, faltou algo...

Vejo qualquer sonho por fora de meus sonos
Mas nunca é meu.

Foge voando.

Este frio fractaliza meu devaneio,
Nunca é sempre e sempre é nunca.
E o zunido eterno não é o mesmo de antes.

É a estrada noturna que leva ao desconhecido
São as ideias que tive de um templo esquecido
O tempo, sim, o tempo me passa aos entrecortes
Um segundo que foi infinito
E uma eternidade que era de outra, recortes...

Acordado me resta o corpo, uma leitura, algum som
Toda a apatia de ser passivo e descuidado
Todo o céu só visto através de janela
O tempo que desperdiço a pensar no desperdício
Que é passar o tempo a pensar no tempo que passa
Fora das janelas de meu céu
Passam carros nas ruas, penso em luas
Penso que homem algum pisou nelas
E eu não serei o primeiro.

Penso apenas em que seria mais fácil não pensar.
Mas me importo com opostos atraídos
Me importo com as maiores desimportâncias
Estou vivo por acaso

Através de um céu que dá numa janela...

Andando em fiapos de lembranças que não vivi
Me equilibro em um deles
Mas caio novamente no infinito que não existe.
Como imaginar o que não penso? Como seria?

Qualquer coisa além de mim.

Medir falta de medida desmede o que foi medido.

13/03/2011

O que sobrou do romantismo, hoje
É eu digitar, todos os dias, insistente
Seu nome completo

No google.
Foi numa música antiga em que éramos juntos
Que me veio esse relato, sorrateiro...
Eu senti o gosto de frustração amarga
Saindo de minha boca em recitar o ritmo
Que não mais consigo acompanhar...
E o que sobrou foi um sinto muito
Repetido e ecoado, em alguma parte a engasgar
Partido num soluço que guardei para mim.

Sentindo muito em não mais ter sentido
Vi o meu sonho ali,

Escorrido.

Na rua abandonada com o poste apagado
No bueiro de tudo que um dia vivi
Saiu um morcego-lembrança assustado
Sem saber que também era susto.
Não se impressione em me encontrar sentado
Ralando meus sapatos no asfalto
Em uma madrugada não muito esperada
Em que esperei qualquer espera de vulto
Por dentro eu era esburacado
Mas luz nenhuma conseguiu atravessar...

Meus olhos não enxergaram no escuro
Me escutei em cada palavra não dita
Que foi se deixando até acabar
Morreu ali,

No meio da rua.

Escorria para o bueiro...

Passou o carro com aquela música
Em que éramos luz de qualquer poste
Que agora se apaga nas vezes que ali passo...

Me lembrei.

Me é estranho (I)

I

Vivo num tempo em inconstante descompasso
Nostalgias juntadas de um passado inexistente
Amores impossíveis, reais e acontecidos, o ente
Que um dia se materializou no cadente espaço....

De um passado falso que profere um além de quem
Se faz inteiramente descomposto por possíveis
Poderes de porventura por tais vezes agradáveis...

A dor que evitei, sei que agora sinto
A pessoa que evitei é a que mais amo
O passado que não vivi é o que mais chamo...

Os versos que não verti me foram afora
De uma aventura verde que vivi adentro
Flutuando em mil outras vidas que lustro
Em lustre que reluz vidas de outrora...

O amor desconfiado que senti um dia
Fez-se poente dos sóis de luz que me negaram
Nas noites das luas que por ti afirmei que eram
Além de quem uma vez julguei como valia...

A pena e todas as levezas do mundo-espelho
Refletido das luzes que me transpuseram
Noites-dia em bate e volta que me vieram...

Os impropérios medidos em confiança minha
De todos os impérios que um dia construídos
Em dúvida fizeram da minha confiança, ruídos...

Muito pós linha dos que chamados se tornam bárbaros
Venho curtido por vidas aquém do desconhecido
Por muito de si para si, pior inimigo tem sido.

12/03/2011

Retrocesso em ponteiros, passadas contrárias
Chuva voltando às nuvens, desencontro de caminhos
Feitio do nada, nevoeiros, meios não trilhados
Das dores evitadas, chances perdidas, várias...
De barreiras da realidade, malhas
Todo infinito que um dia defini
Deixou de voar, encostou em algo
E se tornou.

09/03/2011

Fluxado fixado, feitio em feixes fadados em feno leve, minh' ambição...
Eis que encontro enfadonho e enfeitiçado, nos enfeites estridentes de um estrondo enforcadamente enseado, a escutação...

Sou sonho na realidade, em fulgurância desacontecida do que se propõe em altivos alicerces da formação além-tocante,

Toco não só na superfície, ainda que nela limitado.
Aos que mais confio, a maior desconfiança
Aos que menos amo, disponho-me abertamente
Escolhi perder, escolhi ser erroneamente
O que não tem sido; uma vida em fiança...

O dia que nasce azul-dança de um carnaval
Que eu não aprovei nem aproveitei
Os passos dados que do futuro imaginei
Pouca coisa mudou, feito vendaval...

Vindo e indo em surdina
Violino anuncia: ainda sou meu pior inimigo
Ainda tenho por terra o meu próprio castigo...

E que você, subalterno ao empedernido instinto
Não creio que humano se humanize
Que do animal ao sobrepor o bruto, regojize...

05/03/2011

Nascido a perecer
Foi da morte surgido
Que antes destruido
Está agora por desfazer

Mistérios na areia
E todas as soluções
Desenho ilusões
Das quais o mar enleia

Reflete a luz em espelho
Que por dentro é outro mundo
Por fora é apenas refletido

O sol que ali bate
Volta a si parte de luz
De outros mundos de truz

Além desse, além desse.

Venho com a palavra não pronunciada
Com a intenção amarrotada em mentiras
Vertigens de uma verdade não validada
Vêm anunciando do caos e das liras
Cria em duas direções a inspiração.

E estando entre elas, não me inspiro a nada...

Mas eu, que me calo, como irei dizer como se calar?
Que da morte fui nascido para então novamente morrer?

Não adiantou ser a pessoa certa,
O momento era errado
As palavras também.

Tem sido errado por minha existência
Insistida em escolher a falta de escolha
Escoando em funil, liberto-lha
Para se explodir como estrelas em reticência...

E fica vago, tempo distorcido
Em mesma mentira dos perfumes
Piscada na noite em que vejo lumes
O Céu fulminou o dia abatido

Rides de minha dúvida
Porque insisto, busco buscar
Certezas que me fazem falhar

Os mistérios que conheço
Deixo-os por perto
Vejo-os apenas do alto.

E as estrelas por baixo do céu que esconde a terra...

Círculos flutuantes em uma sala esférica
Deslumbro o infinito apenas pela finitude...
A vida sendo vida
Não se parece....
Meio estranha
Se de mim dependesse...
Se boa ou não
Não ficaria feliz ou de manha...
Silencioso em minha observação
Minha passagem não é de ida....

Nesses enganos certeiros
Não sou de sonhos mundanos
O claro é por meio de nevoeiros
De densidade que me faz cheio
Em um texto que termino ao meio
Desterrado de céus inteiros...

E toda essa dança sem música
Que as pessoas fazem nas ruas
Não sei se cantam óperas
Pelo fim e por ser única

A morte que ainda clama
Seu direito de silêncio.


02/03/2011

Uma felicidade doce e lenta do passado
Alma que talvez outra além dela
Fitando uma a outra, o sol vela
Um banco defronte ao lago espelhado...

Desencontrado, me encontrei em cena
De um poente laranja de todas as cores
de cada gota d'água pintada algures
Do alcance dos olhos em mesma sina...

Não era você mas sabia que a via
De algum passado reinventado
Espelhado em cada raio alcançado

De todos os laranjas lembrados
De uma cena criada em orvalho
Que Ao coração deixou apenas um talho...

Escorreu nele toda a lembrança em delta...
O nada é impossível
O tudo, improvável
O improvável me parece impossível.

28/02/2011

O mesmo formalismo que me prende é o que me permite expressar. Nem sempre sou preso aos versos, penso até que me facilita mais descarregar tudo em fluxo, sem enlear...

Mas é difícil passar a impressão da cabeça ao texto, o simples ato de escrever embaraça. Engraçado que até palavras pensadas quando aqui vertidas parecem artificiais, como se não fossem as mesmas. Que me vale o que escrevo, nunca me importei, me afastando da ideia original acabo por criar outras ideias. Quando então leio, vez ou outra uma surpresa.

Branco como neve é o frio do vazio, que fractalizado em simetria tão bela se mostra a quem de perto vê. É justo e imparcial, desmazelado por qualquer indício de calor, ainda que seja humano.

Partido em navios que seguem rotas milenares de descobrimento já desbravado. Qualquer lugar aquém de mim, em uma floresta, há talvez uma erva com a cura dos males do coração. Tintas exóticas para as vestes de um rei além do mar.

À porta do submundo há uma placa de aviso que diz que, trespassada, não há volta. E fico com a estranha sensação que é dali que se encontram as soluções dos sonhos misteriosos e também ali que se encontra, em qualquer musgo abarrotado, a substância de qualquer ocultismo que se proíbe de se explicar.

Acredito em fadas e nos contos delas. Tem sido difícil admitir porque não se faz sentir, mas estão entre o que é ignorado e o que não se percebe. O que não existe não pode ser concebido. Os encantos que tenho nenhuma ciência explicou. O sentimento mais forte é também o mais dúbio e etéreo, como uma transparência que causa impressão e pressentimento, que é rara e engana os olhos, como que vertida em outro plano, que se acreditada, já são planos meus... Como que um barulho que não existiu, mas tive a certeza de ter escutado. como saber se posso confiar em meus sentidos? Sabendo que cada um deles pode me enganar completamente, mas não todos... Mesmo que em pequena parcela permeada de um indício de realidade; uma grande mentira que esconde a menor verdade.

Aquela caverna que entrei quando era pequeno. Senti tremores e rituais de outras vidas passadas, dentro de mim. Quase curvei. Então observo uma fogueira em uma clareira de alguns milênios atrás. Hoje não é impressionante, o que se comove em mim são partes de outras vidas que ainda me são guardadas por mais que desconhecidas. Naturalmente me vem a pergunta: Quantas foram necessárias para eu ter chegado até aqui? Uma vez sonhei em primeira pessoa, era uma floresta escura e dourada, meus pelos eram eriçados e pelo corpo espalhados, eu era macaco ou qualquer coisa parecida. Não pensava mas sabia exatamente o que fazer...

Ainda me sou tão desconhecido... Que não há navios suficientes, nem contos de fadas, nem terras desbravadas que justifique... Submundo inconsciente, sua entrada é qualquer lugar que me fuja a razão... Sou animal adestrado pelas minhas negações e por uma imposição de sociedade que me transforma em ferramenta de uma caixa empoeirada guardada em algum sótão abandonado...
Minha individualidade escorou em alguma árvore vergada e não mais acordou, o ferimento era muito profundo. Então me tornei superficial... Meus oceanos, o que se esconde por baixo de toda lágrima que deixei de derramar? E o que se revela em cada uma que escorreu escondida de qualquer olho além do meu?

Covardia, desgraça, descrença, desistência, culpa, remorso, medo, fracasso, impotência, negação, levemente atenuados pela falta de sentido da vida. Se por ela cheguei a sentir estes por um momento, não me lembro como são plenamente... Não posso ser culpado por ter sido de muitas vidas uma semente. E não posso culpar por quem o tem feito. Mas não sou inocente...

Castelo antigo em meio à neve... Sua estrada foi apagada, o que faz pleno seu isolamento. Qualquer coisa mágica se esconde em algum lugar cercado por tantas paredes e razão.

24/02/2011

Me irrito sem que alguém ou um motivo o faça
O que quer dizer que não tenho o direito
De irritar alguém por um motivo.
Ouço que apenas pessoas confiadas
Possuem a chance da traição
E então me vem a dúvida
Se nunca traí ou nunca fui confiado...
Embaraçado em saber se dou ou não valor à palavra
A tudo dito vejo com mesma relevância
Não creio em nada que dizem
Por dizer o que ninguém crê

Me achei na perdição, desconhecendo os mesmos caminhos
Desconstruindo o que já foi feito...
Estancado, estagnado, preso em movimento
Que em nenhum momento é ação...

Continuar crendo em ilusão.

Escrevo sempre a uma pessoa, embora todos entendam
E até saibam quem é...
Talvez eu tenha confundido uma mesma coisa
Em diferentes pessoas
Mas minha grande dúvida é saber exatamente o que quero
Exatamente o que sinto.
Mas não confio, me disseram que não existe.
Então deixei de crer em tudo e todos
Sem negar que cada um possua ao menos partícula de verdade.
É que quero todas as verdades e para isso vou mentir...
Sendo então à maneira deles, entenderei por fora o que é real...
Embora eu não seja por dentro...

Ilusão crendo em continuar...

Embora parada, está em vários lugares ao mesmo tempo
Vejo-a em cada passo dado, em cada rua, em cada nuvem...
A mentira repetida mil vezes que não se tornou verdade
Apenas queria que fosse, por mais que não seja.
E quanto menos me aproximar, mais será verdadeiro...
É minha única certeza... Me tornar mais incerto.
Sem uma condição, materializo-a em qualquer lugar.
O ponto que distancia até com tudo se misturar
Não preciso de você
Estando ao mesmo tempo em três lugares
Primeiro e segundo dependidos inicialmente do terceiro
Agora Interdependentes entre si
Como passado, presente e futuro
Por mais que eu me contente apenas com um...

Crendo em continuar, ilusão...

Quanto mais eu esconder por trás de um vazio
Mais o nada terá significado, nunca se enche, é infinito...
Não me daria a chance de sequer poder estragar
Pois por saber que poderia, já estragou.
E por mais que, para mim, tenha nada significado
Criaria outros significados de um nada modificado...
Arte abstrata imaginada de arte abstrata.

Pois o mundo tem sido contínuo, crível e ilusório
Por mais que um dia ele venha acabar
Por mais que haja tantas mentiras
Por mais que eu ache sentir algo real...

Que eu ache sentir algo real venha acabar em tantas mentiras...
Me valho do que não sou mas não para me descobrir...
Me descubro de todos os cobertores
Para o frio que retalha as mesmas histórias
Que deixaram de ser contadas em dias
Que consegui contar a todas as estrelas
Que tiritava, via apenas um branco, um teto...
Você é essa estrela, com ou sem relutância
O máximo que terei é uma pequena luminosidade sua...
É pela distância que me criou os sonhos.

22/02/2011

Se estas palavras modificassem alguma coisa
Se estas palavras atingissem um nervo
Se estas palavras eu me esquecesse

De que fui eu quem as escreveu
Ou talvez apenas uma parte do que tenho sido.

De todo o branco que poderia usar para inventar tristezas
Ou relatar as minhas, evocando com imagens
Me recuso a ver.

Se estas palavras fizessem uma lágrima derramada
Seria pretensão.

Tem sido de minha parte, mas não são por elas que lamentei.
Não posso ir além
Não há como convencer

Estive a circular nos dias da semanas
Dos meses
Dos anos
Das vidas.

Não consegui sequer me convencer.
Não me lembro de muitas coisas,
Poucas valem a pena ser lembradas.

Mas minha vida não mudou, continuo
Das lembranças, escravo com amnésia
Acorrentado por todos os esquecimentos
Na caravela dos arrependimentos...

Não me vem alento, continuo escrevendo círculos
Cada vez mais perfeitos
Voltas para os mesmos pontos de partida
É sempre culpa de uma menina infelicidade.

Mas me faz feliz menina, se sonhar n'outra realidade.
Esse mundo me esqueceu ou eu me esqueci dele?
E agora sequer ligo se faz diferença.

Talvez tenha feito. Se fez, não mudou muito.

Tenho sono e quase deliro por mais que eu durma
Por mais que esteja são.
Estou correndo dentro de uma sala branca
Onde não distinguo teto do chão...

De onde vem a luz?

Confesso então quando estou sozinho
Sou meu único confidente.
Das incapacidades que me limitam
De tudo que senti e apaguei com a atuação
"Tudo bem..."

Não está e não estou. Nem me revolto mas é revoltante.

Tenho dores nos piores lugares,
No peito e no cérebro pensante.

Sou apenas um peão no xadrez
Isentado de meu valor
Pronto a me sacrificar por qualquer coisa
Que valha menos ainda.
Pudesse derrubar realeza...
Não ligo tanto para dor
Embora eu tenha sempre vez
Não faço minha jogada.

21/02/2011

1

Para ela guardei meu último olhar
E o arrependimento de não ter sido

O primeiro.

Por trás de minha falsidade mal simulada
Escondi algo de verdadeiro.

Era rescém nascido da eternidade
A prevenção de um desespero.

Custa caro protegê-lo...
Erro previnir erro.

E me acertando no que vejo de errado
Vou deixando-o guardado.

Não é desse mundo derradeiro.

2

Estranho pressentimento que, existindo
Evite que algo exista, estranho que
Pressentindo, algo existe ainda que evitado.
Então do retilíneo, um baque...

Talvez sejam apenas pretenções que guardo
E que se não existem, não faz diferença guardar
Por isso que além de mim não deixo passar
Para aquém de você não me tome por passado...

Mancando, mas tentando passada normal
Vejo-me patife, lutando contra a nau
Que vai ancorando pelas noites que não dormi.

Sem armas, como um normal que não me atina
Carrego a cruz que não me destina
Crucificando os dias que não vivi.

3

Pode parecer exagero
Mas amo de um jeito
De rasgar o peito
Mas não é desespero.

Mutilo-me em inexitências
Das existências que não me vieram
Que antes de nascer, morram
Para então serem resiliências

Do passado que não tive...
Do presento que não vivo...
Do futuro que não virá...

Da espirituosidade que não tive...
Da carcaça corpórea que não me faz vivo...
Da geniosidade que não virá...

20/02/2011

Por não suportar que a vida acaba
Inventou o eterno...
Não suportando a muralha de que é capaz a voz
A boca calou-se na outra...

O vento ressoa pela primeira vez a uns
Ressoado por outros em outros tempos
Esgueira-se no espaço em que se ocupa
Como se fosse coisa que não é coisa

Murmurando sem ser visto...

Mas pode ver se escutado
E tocar sem ser tocado
Aquele que um dia soube
O que é ser vento ressoado.

Sabe mesmo o que é solidão?
Não suporta o próprio olho no olho
Refletido do espelho?
E dos desvios de qualquer aproximação...

Murmúrios de calma madrugada
Não pode ser visto na noite calada

Mas vê se escutado
Mesmo que em cego caminho...

É também ocupante do espaço
Ainda que buraco negro.

A dúvida de não ser certo sequer de si
Ainda que buraco negro
Foi sol de planeta
onde murmuraram os ventos...

Dos princípios, a incerteza.
Que sem ela, não estaria, disso, certo.
Certo em talvez, tais vezes...

Na vez em que fui o vento e não seu murmúrio
Em um quarto escuro
Onde não havia ninguém...

16/02/2011

Guardo tudo em meu ser, talvez egoísmo
Por isso tenho que também não ser, querendo...
Com coisas que não guardo se venho sendo
Talvez até sendo maior que eu mesmo

Das muitas histórias imaginadas
No branco de cada página
Penso sobre elas, em surdina
Não podem ser tocadas, nem concebidas...

A esbarrar em meus pensamentos
Com um nada sempre a esmo
Meu ser se guarda em si mesmo.

E cada falta de direção é menos um caminho
das muitas histórias que desconheço
Mas que por elas, em curiosidade, desvaneço...

Eternidade inacabada

Esse afastamento sem reaproximação, crescente...
Essa vida que aumenta mas menos se sente...

Alguns momentos, apagados, permanentemente...

Por pouco, me senti completo, mesmo inacabado
Ultrapassei o que me tangiu à expectativa, senti o infinito vindo

De um instante.

Naquele segundo, eterno, que passou...
Valeriam muitas vidas sem o momento que ficou

Por trás da ferida profunda que não me matou...

Mas que levou muito da vida, que da falta criou
O que um dia já havia aprendido.

Volto ao ponto de partida, renascido.

Olhares de crianças, sem distinções
Mãos que antes nunca se tocaram
A tocar a música que não foi ouvida
Vendo o que se tem visto...

Não tenho ido por não ouvir o chamado
E dos rumos que podia ter tomado

Apenas imaginei...

Tão pequeno se é no inacabável
Tendendo ao nada, até que acabe, indelével

Na brancura de uma página não escrita...

Mais vago que qualquer silêncio
Que diz mais que qualquer discurso
Meditando sobre tudo da vida e além dela
E sobre a ausência que a circunda e se revela

Pois o nada está em tudo...
Já não me importo se o que escrevo permaneça perdido...

07/02/2011

Salto olímpico-universal

Estou sempre pronto a mergulhar, desse mundo que me é externo
Nesse infinito mar de vazios, como espelho frente a espelho,
Só assim fico um pouco mais perto do improvável eterno
E de quase tudo dos grandes nadas que permeio, apenas destelho

Uma ou outra não-coisa ou ausência que estive a me negar...
Não devia sofrer por não ter sido um não-ser, a isso acostumo
A Meditar como se não estivesse, me mostrar como não se mostrar...
E não me cansar dessa justaposição de opostos que de muito arrumo.

Buracos negros que estou a criar
São presentes em um universo completo...
Que seja o meu, que na verdade não tem sido...

Trata-se de entender e não ignorar
Que se precisa do desentendimento
O despercebido a ser percebido...

06/02/2011

Acordei e senti uma grande necessidade, sem necessidade
De escrever aqui. Outro vício sem motivos, paixão por nada...
Que arranje alguém sem vício de amores impossíveis
Estes, são meio estragados cá nesse mundo, vivem noutro...
Pode ser até humilde no plano do real, mas vive de sonho requintado...
Desses perfeitos, de partir coração, de se fazer filme, até verso...
Cavalheiro dos sonhos, de si para si, talvez seja apenas egoísmo
Se negar a aceitar realidade que pula aos olhos.

Existir ou não, não importa. Precisa existir não, é muita coisa...
Se for de outro modo pode até ser, mas não é o que me inexiste...
E o que me inexiste me é querido bem, me vale mais que o que existe...

Deixo essa certeza minha vaga, na minha vida é assim mesmo...
Só me contrariando pra me entender, até porque não me entendo...
Já devo ter matado esse romantismo umas quinze vezes, mas ele volta...

Porém tenho muita fé na minha falta de fé, quero nada não...
Se mereço ou não, que me importa... Precisa não, sou de uma imprecisão...
Mundo esse é feito de pouca coisa, quero muita, só sonhando perfeitamente.

Vou me endireitando por indiretas, chegando na verdade pelas falsidades
Aos tropeços me encaixo onde nada se encaixa...
Tem sido assim, não lamento nem reclamo, ainda peço perdão:

Me permite inexistir? Te custa nada...

Espantado

Perdi a conta de quantas vezes estou aqui sem saber
Ao que vim escrever ou os motivos para fazê-lo
Sei que nunca os tive, sei que venho sempre no apelo
Nunca sei para que escrevo, realmente queria que fosse para esquecer
Mas volta e meia tenho voltado a ler este assunto que me parece
Uma pendência que esteve, desde que me lembro, pendente...
Uma divagação que nunca pousou e continua sem nexo
Sem linha e sem narrativa, apenas palavra sobre palavra
Soltas sem um grande motivo ou grande ideia...

Vaga vagareza de um tempo que não passou...

Junto qualquer coisa que pareça dar continuidade ao que nunca começou
Junto de uma solidão que me é agora companhia, única que tenho
O que me cerca é um cerco de aproximações, que se são algo
Aproximam-se de uma verdade que nunca saberei
Verdades contadas de uma outra maneira...

Minhas mentiras verdadeiras...

Estou a me tremer de frio até com o sol a me cegar a vista
Parece que nasci no mapa da cidade em que não nasci
Parece que meus olhos são globos de um mundo que não hei de viver
Circulo mais e mais de encontro a meu próprio encontro
Mas era de se saber, nada tenho a encontrar...

Desmundo forçadamente mudo...

Dói a cabeça, mas continuo, contínuo sem saber de onde insisto
Durmo dias inteiros acordado, vivo dias inteiros a morrer
Durmo para o futuro que não me vê, mas que virá
De quando em quando uma pontada
Nem lembrava que a vida pode doer...

Dói até calejar a ferida...

Arrependo de ter dito, ter escrito
Qualquer coisa que me lembre a ti, amada
E minha amada me lembra qualquer coisa
Puxo os cabelos... Tem que me sair uma ideia
Um palavreado bonito , qualquer coisa que me distraia

Qualquer coisa além de ti...

Olha o dia, já a nascer, eu a pensar asneiras
A pensar em nada, a me forçar asneiras
De lambuja ganho a ti, pequena abstração que me desocupa
Estou certo de que será minha maior incerteza...
Não sei se melhor que nada, se melhor que qualquer coisa

Incerta de tantas certezas...

Não quero me deter, desvanescer em desalento
Posso escrever muito, posso escrever mundos mais
Mas me canso de não ter o que dizer, não ter o que ter
Não tenho nada além do além do nada além...
Não sou sequer história a se contar...

Me encontro no desencontro das detenções...

No voo de aves que me haverei além do haver
No que me dói ao fundo mas está tão alto
Não enxergo e nem alcanço, é profundo....
Provei que não há provas para mim
Para nada que escrevo...

Pairo sobre a dúvida...

Colho um amargo desta terra
Ceifo o alimento para me aguentar
Do espantalho a me ajudar dos que vêm em voos
Voo para bem longe do luar
Apenas me distraio, como o espantalho aos que voam
Como o alimento a ser ceifado
Tenho muita fome, não sei de que...
Me desespero, rasgo o espantalho, raios, me deixe para perto voar...
Quero saber o que querer, quero me ceifar num grande voo
Para outras terras, para ter o que plantar
Plantar mil ideias, mil amores, mil vidas a se contar
Tenho uma, duas, tenho aqui, veja, um lindo amor...
Mas dou de cara com a cara espantada do espantalho
Estão a acabar com o que ainda nem comecei...

Tinha planos...

Me destruí antes de começar...
Sequer sair do lugar, estou ainda sentado
Sem uma ideia para me salvar
Estive a escrever o mesmo de sempre
Esse sempre que podia muito bem ser um nunca...

Nunca mais serei o que iria ser.
Sou agora qualquer coisa além de mim.

Uma dúvida apenas, para que escrevi?
Para me distrair de uma dor que não existe.
Para me esquecer de um amor que não amei.
Para desistir do que sequer comecei...

Quero que vá para o inferno com piedades e aparências
Não quero que isso se pareça com nada, menos ainda um lamento.

Não me vem nada à cabeça e cansei de descabelos
Não digo sobre nada desde que comecei a dizer sobre algo
Não é nada, nunca foi.
Se tem sido para mim é problema meu.
E se é problema ter sido, melhor por não ter sido nada, então...

03/02/2011

Carta do sem destinatário

Gastei uma parte de minha vida tentando ser algo para os outros
Não me arrependo de ter tentado ser algo bom para alguém...

Mas agora é tarde.

Consigo guardar aqui dentro, aponta para o coração, e ficarei em silêncio
Não me preocupo e sei os danos, sei o preço, é maior que imagino...
A dor de quem não sabe o caminho é muito pior do que escolheu errado
Entendo que serei o pequeno barco, contra a maré, perdido na tempestade

Aceito perder.

Não posso ir longe, sempre penso na volta e no que vem depois dela
Nas muitas coisas a se pensar depois de se pensar depois da volta
Por aí vai indo, mas não vou a lugar algum...

Há tantas maneiras de ocupar meu tempo que não sei por onde começar
Tem sido assim desde, desde aquela primeira tarefa de casa
Deixei pra última hora porque conseguia deixar
Sempre gostei do pânico e do risco de poder perder tudo por qualquer coisa

Por nada...

Quando pequeno, entendi, gostava da ideia e não do que ela representava.
E sabia que era errado, tão longe daqui... Aponta para o coração.

Deu errado e não há como voltar. Perdi os amores no instante em que os criei
Justamente por tê-los criado do nada, por nada... Pena eu não ser invisível.
Pena ocupar espaço mesmo não existindo. Tudo que amei nunca foi terreno...
Qualquer indício de virtude que pude chegar a ter, foi sufocado pela calúnia
De meros achismos de uma coisa que sequer um dia se achou

Sempre foi perdida.

O meu primeiro beijo, minha primeira vez, o filho que tive, minha velhice...
Já se passaram num lugar suspenso e etéreo como as nuvens
De vez ou outra, um trovão, uma tempestade, estranho vir de algo como o algodão...

Não posso ser bom se penso tão mal de mim, não sinto sequer mais a culpa de antes
Sequer o remorso, o arrependimento, o que comecei e não pude terminar...
Não me importaram por um segundo de terra que tive, nem mesmo as memórias.
Que reais ou não, não sei se foram grande coisa... Talvez tenham sido para mim...
Mas que importa? Sinto que não faria diferença morrer agora, estou pronto.

Todas as minhas lágrimas juntas não deram mais que um medíocre relatório...
Estive a escrever sobre uma coisa que já expirou a validade e eu não tinha visto
São lágrimas podres e sem valor, transparentes mas não invisíveis...
E que estando a cair exatamente agora de meus olhos, como uma chuva fina

Não me fazem diferença.

Que importa olhar para trás quando se anda para frente?
Comigo não foi assim, sempre andei, olhando para baixo, em círculos...
Passando pelos mesmos lugares, mesmas situações...
Por mais que eu mudasse de lugar, mudasse de atitude... Não mudei o que penso.
E sempre pensei no que não importa, no que não devia. Talvez eu olhe para um canto
Dê aquele sorriso partido, longe de ser malícia, talvez um pequeno aviso
"Tenho pensado muito nisso, entende? Se não, tudo bem..."
Sou talvez menos que o ar que respiro, não me mereço...
Nada de pessimismo, nunca fui. Aguento ficar sozinho, talvez nem seja mais difícil.
Por não ser capaz do ódio, tenho minhas dúvidas, seria capaz de amar?

E justo este mistério me move, me motiva e me destrói...
Não quero me sucumbir a nenhum triunfo, que me importa um triunfo?
É apenas uma chuva fina...
Menos ou mais que uma derrota, que seja... Reflexos de um mesmo rio...
Não quero nada, demorei a entender, não quis nada dessa vida...
Faria qualquer coisa por qualquer um, quem quer que seja
Mas estranho como nunca pensei fazer por mim...
Pois sempre me achei a espuma do mar de nada...
E talvez eu a seja.

Devo ser o que os outros pensam porque não penso nada de mim...
Se pensam demais ou pouco, sou demais ou pouco.
Seria eu incapaz de pensar por mim? Penso em pequenas coisas
Ligadas à vida, também à minha vida, mas não sei quem sou...
Não sei de tudo que não possa ser...
Não posso ter certeza de nada e mesmo assim confio em meus sentidos.
E tenho por muito sentido, por pouco também. E tenho sentido por nada.
Mas não posso sentir por tudo...

Eu não me culpo. Tenho me perdoado.
Mas sempre me sentirei culpado.

A tempestade piora
Abandona-se o pequeno barco.
Talvez na espuma do mar de nada, um corpo
E o barco, perdido.
Dúvida se está vivo ou não
Aponta para o coração
Se estiver, outro barco...

02/02/2011

Meu sono me aborrece com seus horários descontrolados...
Para quem tem hábitos regulares, invejo pela perseverança
De tanto insistir, perseverei em irregularidades, se há dança
Nessa vida de ciclos e ritmos passados, meus pés ficam parados...
Mesmo que se faça uma valsa, que se faça orquestra de se ver sentado

Guardarei na lapela apenas a rosa da observação, em silêncio.

Que talvez me comovesse, talvez, preferiria manter em segredo
Não me tome por egoísta se sou dado a me esconder
O que é profundo também costuma a ser mudo...
E pode ser que todo esse silêncio atrapalhe meu repouso

Por aquém de mim se fazer ruído...

Como interferências, mistura rude do que venho guardando
Possa ser algo a me incomodar, pois nem sempre guardo segredos
Até aquele que tantos tem, acabamos por saber que tem
Mesmo que não conte, mesmo que não saibamos quais...
Como que por ser tão vago fosse seguido de reticências...
E que as víssemos como filhas de um pai que deixa
De contar muitas coisas e isso acaba gerando coisas
Dentro de cada um
De cada
Um...

01/02/2011

Me fechar como se nunca fui aberto...
Me acabar como se não comecei...
Sou feito porém tenho desfeito...
Sou imagem mas não a considero a ser enxergada...
Minha sina é não ter sina alguma...
Minha parte é não fazer parte...
Não confio pois só confia quem é desconfiado...
Não amo, mas não para não ser amado...

Me esqueço para poder então lembrar...
Me faço apenas para desfazer...
Sou inteiro por fora, por dentro, fragmentos...
Sou sonâmbulo pois vivo acordado...
Minha infância é algo que ainda não chegou...
Minha velhice costuma ser o que me passou...
Não chego a lugar algum escolhendo caminhos...
Não vou entender sem antes ser desentendido...
Hesitadamente sem motivos para se escrever, deserto-me
Dos objetivos iniciais que já não me lembro, gostaria de recordar...
E nesta sina de mudar o agora com uma vontade passada, afeta-me
Dias que passam só me passam consentidos pois ainda haverão aqueles a se guardar...
Sou aquém do mundo uma irrisória margem riscada em algum cálculo arredondado
Em papéis amassados, numa casa abandonada, tempo corrosivo a me alertar...
E dos dias que nunca me vieram, mas que ainda lembro, dias que não tem passado
Não se encaixam, estão amassados, dentro de minha memória abandonada, a falhar...

Tentado pelo que se encontra ao outro lado da linha horizontal que limita não só a mim
Varrido por ventos conjuntos de o que seja que não seja eu, que não levam a lugar algum...
Circulando na mesma praça, tentando me lembrar, se eu insistir talvez me lembre...
Mas me distraio a qualquer luz, a qualquer inseto, repugno, sou mesmo uma distração...
Abstraído por qualquer coisa que exista ou não, não parece de modo algum incômodo,
Passar um longo dia, assim...

Em branco.

Talvez se me ocupasse de alguma maneira, algum modo, por meio de um ou outro,
Algo que me fizesse útil meio a mar de inutilidades, me escassear de mim...
Para ser uma exceção própria. Muda-se o que é, mas o que se faz com o que não vem a ser?
Não, nada disso é um peso, mesmo que encontre no caminho o pesar em branco.
E que assim tudo ainda me parece fazer sentido! Por trás de um nada pode haver tanto!
Não me deixo levar pelas aparências mas por elas me deixo levar a tantas outras coisas...
Que talvez sejam menos ainda que sombra da sombra, uma verdade mentirosa.
Por que não me canso de me cansar? Por que fico a sonhar que um dia irei sonhar?
Nunca achei que fosse mudar o mundo, pois se mudo o que me muda então não mais mudarei...
Mas parece que sou sempre a mesma coisa, coisa que se acomodou à inquietude,
Que disfarça querendo mostrar, mas que não lembra mais o que estava escondido
Talvez nunca soube. E que se soubesse, a lembrança não seria a mesma, o tempo passou...
É o que foi com mais um pouco do que tem sido, mesmo que nunca tenha sido, mas imaginado...

Mesmo que não seja nada, foi algo para mim, me afetou e só pode ter sido alguma coisa...
Mesmo que não seja nada.

28/01/2011

Das cidades malditas.

Conurbado, conturbado, contorcionista
Ao mesmo tempo separado por semelhanças
Por mais que se pareçam... Por mais que eu insista,
São pelo detalhe em exceção (a escassez), diferenças...

Vestindo roupas que não me servem, lugares que não me parecem
Sou preciso quanto a isso, imperfeito...
Vou vestindo tudo que não me pertence, nisso, sou perfeito,
Tudo que me for completamente impreciso, me merecem...

Pois sou uma cobaia para testar o ambiente, nada mais...
Carrego por dentro milagres inexplicáveis e genéticos...
O que escrevo são relatórios cíclicos e repetidos...

Sou um pequeno fardo invisível, pequena fagulha de matéria
Condensado da energia, e dela ainda escravo, a luz...
À inexistência mal calculada que faço jus.

26/01/2011

Solidão é alguém sozinho
Me sinto muitos juntos em um ninguém
Desses que se tomam por um só, sinto apenas desdém
E até mesmo como um, comum, serei estranho no ninho.

O tempo é a morte anunciada
Destino bem sei que é só um
Desses tropeços, dessa vida em jejum
E das faltas acabo criando minha enseada.

Esses estrangeiros que pensam ter algo em comum
São na verdade atores de um drama que não passa
Dos bastidores de terrenices tolas, vontades de um

Ser que na verdade, se é, não sabe se vem sendo
E se soubesse, não seria por orgulho
Que se fosse, seria apenas adorno, adendo.

Somos todos atores de uma peça que será vista apenas por nós mesmos. Querer ser além disso, nos tira o direito de atuar nela. Podemos apenas ao que ela pede, e se pedirmos mais, somos outros... Aguenta ser um outro fora de qualquer um?

24/01/2011

Continuação em surdina

Cena de um nascimento...

1


Os olhares desviados, o amor impossível em surdina
Não sei se foram de escolha minha, se me aconteceram sem querer...
Na locadora antiga perto de casa, eu tinha essa sina
De encontrar filmes com cenas perfeitas pro meu envaidecer...

De um mundo secreto longe daqui, um grande jardim
Sonho antigo, ser completo em cores, numa cena...
Somente duas pessoas juntas, unidos por mãos e roupas em marfim
Em um balanço, Uma vida inteira em alguns minutos, te vi pequena

A crescer em meus olhos, por dentro de mim...
Talvez tenha sido egoísmo meu ter escondido tudo
Mas vivia em um mundo perfeito, não precisava nem exisitr.

Entendi a morte, aceito. Desde o começo era ela com seus avisos
De que aquilo não viria, e que o talvez não é um porvir
De um amor ideal incapaz do real que o tem desfeito...

2


Pois como em nascentes, você surge misteriosamente
No horizonte, nas palavras que sou incapaz de dizer,
Que contemplo em meu final de dia, minunciosamente...
Em cada linha de cada tarde, vejo então você nascer

Ao por do sol, no melhor impossível, de lástimas minhas
Vem logo assim, em contraste, pra aliviar essa tristeza...
Que há muito tem sido você, remédio de minhas alcunhas,
Inventadas por quem não acredita (eu), também dessa minha incerteza,

Desse aperto que não consigo explicar, mas sei que é você à porta
Nem avisou que viria, logo assim em correnteza
Desaguando nessa estiagem sem esperanças...

E a banda tocando em frente ao lago espelhado, sonho realizado
De uma cena perfeita, ao por do sol, de um amor ideal e certeiro
Que nasce até em meio a incertezas e desespero...

3

Te amei mil vezes em surdina...
Imaginei-nos em paisagens feitas de luz...
Vi o seu contorno, a silhueta de seu rosto, levemente...
Vi todos os dias em um clarão que me veio à noite...
Se nos amarmos, não haverá final feliz a se contar...
Uma das conclusões mais tristes que me pesam...
A maior reticência que me vagueia...
A esmo nessa imensidão de apertar a garganta...

Te amei mil vezes em surdina...
O passado e o futuro de mãos dadas é meu maior presente...
E por mais que passem, não me faz inveja, sempre mudam...
Mesmo que devagar, ou com muita luta, sempre muda...
Tudo me vem abafado e embaçado como que por excesso...
Dependo dos intervalos em que a falta de claridade e sua abundância me cegam...
De uma coisa que não existe, que não tem cor, nem nome...
Porque toda exceção é uma escassez...

Por isso te amei mil vezes, em surdina.

23/01/2011

Realidade é a teatralidade da verdade

Disfarçando-me com a falsidade
Me aproximo de uma verdade que não seria dita
Se verdadeiro eu também fosse; lugar que necessita
Apenas uma verdade, duas é exagero, alarde.

Me passando por quem não sou
Descubro-me em outros outros
Que se também se tratam por estrangeiros
São mais eu que nunca fui, eu que se acabou.

Máscaras justapostas, formando uma face apenas
De muitas outras que sou e não sou, quis
E não quis, agora são parte do que fiz.

Mesmo que tratado como uma unidade,
Ainda que me sinta incompleto,
O rosto que vejo é a fusão de muitos, incerto.

21/01/2011

Sentimento profundo às vezes não chega na superfície.


your messed up life still thrills me...
Fractais de neve no oceânico espaço sideral cardíaco, pulsado pela ideia do improvável infinito. Ambivalência antagônica, paradoxo de semelhantes... Vejo a alegria com tristeza... Um mundo que perdeu suas cores, eram apenas comprimento de onda, frequências... Quanto mais caminho, mais tenho que correr. Quanto mais sonho, menos resta-me viver. Vivo em sonhos, sonâmbulo iludido do dia a dia. Amores em branco. Sábio aquele que aceitou, por trás do nada, amar muito: é mais belo que qualquer verso de esquecimento; só resta então o pouco que é muito, o luxo que é humilde... A passagem que não dá a lugar algum, mas que ainda é passagem. Vejo mais por sonhos que por olhos, tenho amado em outros mundos, outras vidas... Penso mais e mais em alguém, disso aceito que, crescentemente, sou sozinho. E o que me resta, não deve ser. Pois entendo quem está só, somente só entenderias o que é companhia... Faço-me favores de ser mais o que sou menos. E o que sou mais, é não sendo.
Clamor pela vitória pelo que não pode ser vencido, unanimidade em concordância com uma exceção, não se pode lutar contra a natureza humana. Séculos de opressão e apenas alguns minutos restantes, agonia por uma felicidade inalcançável por chegar tão perto ao alcance de fazer-se acreditar alcançável. Mas aproxima-se e distancia-se apenas no contexto do impossível. Uma piscina que não se pode nadar. A água que não deve ser tocada, nem bebida. O amor que não deve ser amado, guardado como uva, secou-se em amargo... Passa. Um escuro que apaga o dia. Distâncias incalculáveis por telepatia. Alguns planetas, infinitas formas de vida, apenas um sonho. Apenas um sonho. Abandonado de mim, que não mereço ser feliz. Fui buscar felicidade mas ela já estava aqui, sentada, fitando-me nos olhos. Sou infeliz. Mereço o mal. Sou mau. E o que é ruim nesse mundo é apenas um reflexo de meu comportamento. Tenho sido muitos em um porque ao fundo não sou nenhum. O nunca em todos os meus dias, nunca que virou sempre...

19/01/2011

Meu inconsciente é um castelo subterrâneo
De harpias e trogloditas a serem governados
Por um grande dragão negro também governado
Por um certo humano, meu terreno conterrâneo.

Mas nunca se sabe quem domina quem
Em dois pontos de vista opostos
Necessários um ao outro para coexistirem
Em um dúbio mundo de corretos

Nunca se sabe se há dia ou noite
Numa estranha estrada para a superfície...
Dos excessos iniciais de luz, do incrível

Que depois, crível
Não é mais superfície
E sim calabouço.
A vida é um bem esgotável.
Sei disso. Uma bomba relógio
Também isso me disseram
Pouco a pouco a morrer mais
A diminuir o passo até parar
Talvez de solavanco
Talvez em paz.
Às vezes, uma taquicardia
Assim, sem explicação.