O mesmo formalismo que me prende é o que me permite expressar. Nem sempre sou preso aos versos, penso até que me facilita mais descarregar tudo em fluxo, sem enlear...
Mas é difícil passar a impressão da cabeça ao texto, o simples ato de escrever embaraça. Engraçado que até palavras pensadas quando aqui vertidas parecem artificiais, como se não fossem as mesmas. Que me vale o que escrevo, nunca me importei, me afastando da ideia original acabo por criar outras ideias. Quando então leio, vez ou outra uma surpresa.
Branco como neve é o frio do vazio, que fractalizado em simetria tão bela se mostra a quem de perto vê. É justo e imparcial, desmazelado por qualquer indício de calor, ainda que seja humano.
Partido em navios que seguem rotas milenares de descobrimento já desbravado. Qualquer lugar aquém de mim, em uma floresta, há talvez uma erva com a cura dos males do coração. Tintas exóticas para as vestes de um rei além do mar.
À porta do submundo há uma placa de aviso que diz que, trespassada, não há volta. E fico com a estranha sensação que é dali que se encontram as soluções dos sonhos misteriosos e também ali que se encontra, em qualquer musgo abarrotado, a substância de qualquer ocultismo que se proíbe de se explicar.
Acredito em fadas e nos contos delas. Tem sido difícil admitir porque não se faz sentir, mas estão entre o que é ignorado e o que não se percebe. O que não existe não pode ser concebido. Os encantos que tenho nenhuma ciência explicou. O sentimento mais forte é também o mais dúbio e etéreo, como uma transparência que causa impressão e pressentimento, que é rara e engana os olhos, como que vertida em outro plano, que se acreditada, já são planos meus... Como que um barulho que não existiu, mas tive a certeza de ter escutado. como saber se posso confiar em meus sentidos? Sabendo que cada um deles pode me enganar completamente, mas não todos... Mesmo que em pequena parcela permeada de um indício de realidade; uma grande mentira que esconde a menor verdade.
Aquela caverna que entrei quando era pequeno. Senti tremores e rituais de outras vidas passadas, dentro de mim. Quase curvei. Então observo uma fogueira em uma clareira de alguns milênios atrás. Hoje não é impressionante, o que se comove em mim são partes de outras vidas que ainda me são guardadas por mais que desconhecidas. Naturalmente me vem a pergunta: Quantas foram necessárias para eu ter chegado até aqui? Uma vez sonhei em primeira pessoa, era uma floresta escura e dourada, meus pelos eram eriçados e pelo corpo espalhados, eu era macaco ou qualquer coisa parecida. Não pensava mas sabia exatamente o que fazer...
Ainda me sou tão desconhecido... Que não há navios suficientes, nem contos de fadas, nem terras desbravadas que justifique... Submundo inconsciente, sua entrada é qualquer lugar que me fuja a razão... Sou animal adestrado pelas minhas negações e por uma imposição de sociedade que me transforma em ferramenta de uma caixa empoeirada guardada em algum sótão abandonado...
Minha individualidade escorou em alguma árvore vergada e não mais acordou, o ferimento era muito profundo. Então me tornei superficial... Meus oceanos, o que se esconde por baixo de toda lágrima que deixei de derramar? E o que se revela em cada uma que escorreu escondida de qualquer olho além do meu?
Covardia, desgraça, descrença, desistência, culpa, remorso, medo, fracasso, impotência, negação, levemente atenuados pela falta de sentido da vida. Se por ela cheguei a sentir estes por um momento, não me lembro como são plenamente... Não posso ser culpado por ter sido de muitas vidas uma semente. E não posso culpar por quem o tem feito. Mas não sou inocente...
Castelo antigo em meio à neve... Sua estrada foi apagada, o que faz pleno seu isolamento. Qualquer coisa mágica se esconde em algum lugar cercado por tantas paredes e razão.
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