Ao que vim escrever ou os motivos para fazê-lo
Sei que nunca os tive, sei que venho sempre no apelo
Nunca sei para que escrevo, realmente queria que fosse para esquecer
Mas volta e meia tenho voltado a ler este assunto que me parece
Uma pendência que esteve, desde que me lembro, pendente...
Uma divagação que nunca pousou e continua sem nexo
Sem linha e sem narrativa, apenas palavra sobre palavra
Soltas sem um grande motivo ou grande ideia...
Vaga vagareza de um tempo que não passou...
Junto qualquer coisa que pareça dar continuidade ao que nunca começou
Junto de uma solidão que me é agora companhia, única que tenho
O que me cerca é um cerco de aproximações, que se são algo
Aproximam-se de uma verdade que nunca saberei
Verdades contadas de uma outra maneira...
Minhas mentiras verdadeiras...
Estou a me tremer de frio até com o sol a me cegar a vista
Parece que nasci no mapa da cidade em que não nasci
Parece que meus olhos são globos de um mundo que não hei de viver
Circulo mais e mais de encontro a meu próprio encontro
Mas era de se saber, nada tenho a encontrar...
Desmundo forçadamente mudo...
Dói a cabeça, mas continuo, contínuo sem saber de onde insisto
Durmo dias inteiros acordado, vivo dias inteiros a morrer
Durmo para o futuro que não me vê, mas que virá
De quando em quando uma pontada
Nem lembrava que a vida pode doer...
Dói até calejar a ferida...
Arrependo de ter dito, ter escrito
Qualquer coisa que me lembre a ti, amada
E minha amada me lembra qualquer coisa
Puxo os cabelos... Tem que me sair uma ideia
Um palavreado bonito , qualquer coisa que me distraia
Qualquer coisa além de ti...
Olha o dia, já a nascer, eu a pensar asneiras
A pensar em nada, a me forçar asneiras
De lambuja ganho a ti, pequena abstração que me desocupa
Estou certo de que será minha maior incerteza...
Não sei se melhor que nada, se melhor que qualquer coisa
Incerta de tantas certezas...
Não quero me deter, desvanescer em desalento
Posso escrever muito, posso escrever mundos mais
Mas me canso de não ter o que dizer, não ter o que ter
Não tenho nada além do além do nada além...
Não sou sequer história a se contar...
Me encontro no desencontro das detenções...
No voo de aves que me haverei além do haver
No que me dói ao fundo mas está tão alto
Não enxergo e nem alcanço, é profundo....
Provei que não há provas para mim
Para nada que escrevo...
Pairo sobre a dúvida...
Colho um amargo desta terra
Ceifo o alimento para me aguentar
Do espantalho a me ajudar dos que vêm em voos
Voo para bem longe do luar
Apenas me distraio, como o espantalho aos que voam
Como o alimento a ser ceifado
Tenho muita fome, não sei de que...
Me desespero, rasgo o espantalho, raios, me deixe para perto voar...
Quero saber o que querer, quero me ceifar num grande voo
Para outras terras, para ter o que plantar
Plantar mil ideias, mil amores, mil vidas a se contar
Tenho uma, duas, tenho aqui, veja, um lindo amor...
Mas dou de cara com a cara espantada do espantalho
Estão a acabar com o que ainda nem comecei...
Tinha planos...
Me destruí antes de começar...
Sequer sair do lugar, estou ainda sentado
Sem uma ideia para me salvar
Estive a escrever o mesmo de sempre
Esse sempre que podia muito bem ser um nunca...
Nunca mais serei o que iria ser.
Sou agora qualquer coisa além de mim.
Uma dúvida apenas, para que escrevi?
Para me distrair de uma dor que não existe.
Para me esquecer de um amor que não amei.
Para desistir do que sequer comecei...
Quero que vá para o inferno com piedades e aparências
Não quero que isso se pareça com nada, menos ainda um lamento.
Não me vem nada à cabeça e cansei de descabelos
Não digo sobre nada desde que comecei a dizer sobre algo
Não é nada, nunca foi.
Se tem sido para mim é problema meu.
E se é problema ter sido, melhor por não ter sido nada, então...
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