04/04/2011

Você, que sem lembrar me passou

Meus dias descontados de outros que não vivi direito
Minha insistente tautologia acerca do nada que vejo em tudo
Todas as cores possíveis no preto e no branco
E um conselho que não me lembrei e agora vejo anotado

Em um bilhete pregado no espelho.

Sequer o meu reflexo aparece,
Não me desmereci para poder ser negativo
Fui desde que me lembro, nulo, antigo...

Por isso nem precisava me lembrar; esquecia...
Recordação que me era algo novo, lembrava
De que eu mesmo havia escrito o bilhete
Que agora em minhas mãos, em branco...

Deixei no espelho para me esquecer.

Meu reflexo que está em qualquer lugar
Pode estar até em todos ao mesmo tempo
Mas como achar que estaria através de um espelho

Que sequer é lugar.

Nos sonhos em que amei, não me foram verdade
Pois amei em realidade os sonhos
Que agora já não me lembro.

Sequer são lugares.

E eu repouso minha cabeça no chão frio
Tão gelado quanto o que me sobrou,
Que, não sabendo se foi nada, mesmo que fosse
Insisto em tomar como dor.

Talvez por não ser nada.

E eis que você, na calçada, se vira com estranha impressão
Seu rosto bate no meu rosto, sou um estranho.
Curioso, talvez, por não ser nada.

E olho para cima com o barulho do avião
Já estou velho pra essas coisas, mas tento achar
Lamento não ter achado, não cresço...

E todas as ruas que me passam, ou quando passo
São as mesmas ruas do meu passado
A mesma infância cheia de vazios
Ladrilhada por sentidos de cidade pequena...

E ao meu redor, o que ainda enxergo
Forço outra paisagem sobreposta, não cresço...
Qualquer coisa colorida além desse branco e preto
De todos os dias de meu passado.

Tanto sorrindo quando chorando, nem um nem outro
Pois me são o mesmo, ainda que em sua presença e dúvida
Insisto em dizer que não é nada...

Garganta fechando, vista turvando, não é nada
Foi qualquer coisa, você que não conheço e que passa
Nas ruas de minha infância mal ladrilhada...

O que havia de bonito pra te contar, que guardei
Não passa, ficou cicatriz inerte sobreposta a outra
Barulhos de aviões me interrompendo o sono...

Sequer são lugares, não sei onde guardo
Não sei se me importo, dou de ombros para o passado
Que me foi e agora é uma garganta fechando...

O túmulo me aguarda
Com uma orquestra em preto e branco...

Adianta pedir perdão?
Adianta eu me perdoar?
Perdoar a ti?

Nunca culpei por mais que me sinta...
Esse nunca que podia ser um sempre.

Eu preciso terminar aqui, aponta para o peito

Eu preciso terminar o que não comecei.

Nenhum comentário: