Gastei uma parte de minha vida tentando ser algo para os outros
Não me arrependo de ter tentado ser algo bom para alguém...
Mas agora é tarde.
Consigo guardar aqui dentro, aponta para o coração, e ficarei em silêncio
Não me preocupo e sei os danos, sei o preço, é maior que imagino...
A dor de quem não sabe o caminho é muito pior do que escolheu errado
Entendo que serei o pequeno barco, contra a maré, perdido na tempestade
Aceito perder.
Não posso ir longe, sempre penso na volta e no que vem depois dela
Nas muitas coisas a se pensar depois de se pensar depois da volta
Por aí vai indo, mas não vou a lugar algum...
Há tantas maneiras de ocupar meu tempo que não sei por onde começar
Tem sido assim desde, desde aquela primeira tarefa de casa
Deixei pra última hora porque conseguia deixar
Sempre gostei do pânico e do risco de poder perder tudo por qualquer coisa
Por nada...
Quando pequeno, entendi, gostava da ideia e não do que ela representava.
E sabia que era errado, tão longe daqui... Aponta para o coração.
Deu errado e não há como voltar. Perdi os amores no instante em que os criei
Justamente por tê-los criado do nada, por nada... Pena eu não ser invisível.
Pena ocupar espaço mesmo não existindo. Tudo que amei nunca foi terreno...
Qualquer indício de virtude que pude chegar a ter, foi sufocado pela calúnia
De meros achismos de uma coisa que sequer um dia se achou
Sempre foi perdida.
O meu primeiro beijo, minha primeira vez, o filho que tive, minha velhice...
Já se passaram num lugar suspenso e etéreo como as nuvens
De vez ou outra, um trovão, uma tempestade, estranho vir de algo como o algodão...
Não posso ser bom se penso tão mal de mim, não sinto sequer mais a culpa de antes
Sequer o remorso, o arrependimento, o que comecei e não pude terminar...
Não me importaram por um segundo de terra que tive, nem mesmo as memórias.
Que reais ou não, não sei se foram grande coisa... Talvez tenham sido para mim...
Mas que importa? Sinto que não faria diferença morrer agora, estou pronto.
Todas as minhas lágrimas juntas não deram mais que um medíocre relatório...
Estive a escrever sobre uma coisa que já expirou a validade e eu não tinha visto
São lágrimas podres e sem valor, transparentes mas não invisíveis...
E que estando a cair exatamente agora de meus olhos, como uma chuva fina
Não me fazem diferença.
Que importa olhar para trás quando se anda para frente?
Comigo não foi assim, sempre andei, olhando para baixo, em círculos...
Passando pelos mesmos lugares, mesmas situações...
Por mais que eu mudasse de lugar, mudasse de atitude... Não mudei o que penso.
E sempre pensei no que não importa, no que não devia. Talvez eu olhe para um canto
Dê aquele sorriso partido, longe de ser malícia, talvez um pequeno aviso
"Tenho pensado muito nisso, entende? Se não, tudo bem..."
Sou talvez menos que o ar que respiro, não me mereço...
Nada de pessimismo, nunca fui. Aguento ficar sozinho, talvez nem seja mais difícil.
Por não ser capaz do ódio, tenho minhas dúvidas, seria capaz de amar?
E justo este mistério me move, me motiva e me destrói...
Não quero me sucumbir a nenhum triunfo, que me importa um triunfo?
É apenas uma chuva fina...
Menos ou mais que uma derrota, que seja... Reflexos de um mesmo rio...
Não quero nada, demorei a entender, não quis nada dessa vida...
Faria qualquer coisa por qualquer um, quem quer que seja
Mas estranho como nunca pensei fazer por mim...
Pois sempre me achei a espuma do mar de nada...
E talvez eu a seja.
Devo ser o que os outros pensam porque não penso nada de mim...
Se pensam demais ou pouco, sou demais ou pouco.
Seria eu incapaz de pensar por mim? Penso em pequenas coisas
Ligadas à vida, também à minha vida, mas não sei quem sou...
Não sei de tudo que não possa ser...
Não posso ter certeza de nada e mesmo assim confio em meus sentidos.
E tenho por muito sentido, por pouco também. E tenho sentido por nada.
Mas não posso sentir por tudo...
Eu não me culpo. Tenho me perdoado.
Mas sempre me sentirei culpado.
A tempestade piora
Abandona-se o pequeno barco.
Talvez na espuma do mar de nada, um corpo
E o barco, perdido.
Dúvida se está vivo ou não
Aponta para o coração
Se estiver, outro barco...
2 comentários:
Obrigada...
(:
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